O boletim médico saiu com a pompa de bula papal. Ombro operado na sexta, dente ajustado no sábado, alta provável na segunda, tudo cronometrado, narrado, transmitido. O DF Star, hospital particular de Brasília, virou palanque hospitalar, e cada gaze trocada ganhou repercussão nacional como se a saúde de um homem específico fosse questão de Estado. E talvez seja, mas não pela razão que querem te vender.
Repare na mecânica do espetáculo. O mesmo país que não consegue informar quantos pacientes morreram esperando cirurgia eletiva no último trimestre tem repórteres acampados na porta de quarto VIP para reportar a evolução de um ombro. O cidadão médio, aquele que paga a conta inteira dessa festa via imposto sobre tudo que respira, espera oito meses por uma ressonância pelo SUS e morre antes de marcar a consulta de retorno. Mas a câmera está ali, no estacionamento do hospital, esperando o boletim das três da tarde. Por quê? Porque cobertura de político ferido vende, gera clique, alimenta as duas torcidas. A da comoção e a do escárnio.
Siga o circuito do dinheiro e a fotografia fica nítida. Hospital privado de primeira linha, equipe médica selecionada a dedo, segurança reforçada custeada por quem? Parte por ele, parte pelo aparato que orbita ex-presidentes em qualquer república que se preze, parte pela cobertura jornalística que transforma rotina cirúrgica em conteúdo monetizado. Cada lado da disputa tem interesse comercial direto no espetáculo. Os adversários precisam dele vivo, falando, brigando, porque sem inimigo a militância evapora e a verba de campanha seca. Os aliados precisam dele convalescente, mártir suave, vítima conveniente, porque mártir vende livro, palestra, live monetizada e cota partidária. Ninguém naquele circuito quer paciente curado e silencioso. Curado e silencioso não dá ibope.
Há algo de profundamente romano nessa encenação. Os imperadores que ficavam doentes em Roma viravam preocupação cívica enquanto os legionários morriam de disenteria nas margens do Reno sem que ninguém soubesse seus nomes. A república que se acostuma a tratar a saúde dos poderosos como assunto coletivo é a mesma que aprendeu a tratar a saúde dos governados como estatística inconveniente. Inverte tudo. O que devia ser privado virou público, e o que devia ser público virou estatística enterrada em relatório de ministério.
E ainda há o detalhe delicioso do procedimento dentário no sábado. Dente. Sábado. Hospital de luxo. Enquanto o brasileiro comum tenta encaixar uma extração no posto de bairro entre filas, fichas e a chance real de sair de lá com infecção, o paciente ilustre acumula intervenções no mesmo fim de semana como quem programa carro para revisão de cinquenta mil quilômetros. Não há nada de errado em ter dinheiro para isso. O errado é que o mesmo aparato de Estado que sufoca o cidadão para sustentar planos, programas e palanques se ajoelha quando o paciente é gente do andar de cima, qualquer andar de cima, de qualquer cor partidária.
No final, a notícia não é o ombro nem o dente. A notícia é a régua dupla que ninguém comenta. Quem paga a peça toda? Você, na nota fiscal do pão, no boleto da luz, no imposto embutido na gasolina. Quem recebe? O hospital, a equipe, a imprensa que fatura com o circo, o político que capitaliza a convalescença, e o adversário que capitaliza o escárnio. Todo mundo ganha menos quem assiste de casa achando que está sendo informado. Esse, como sempre, sai do espetáculo mais pobre, mais entretido e tão desinformado quanto entrou.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.