A Booking.com, aquela corporação holandesa que fatura bilhões intermediando reservas de hotel e cobrando comissões que fariam corar um agiota medieval, acaba de admitir que hackers acessaram dados de seus clientes. A empresa tratou de atualizar os PINs afetados e emitir aquele comunicado protocolar que já conhecemos de cor: "informações financeiras e endereços dos usuários não foram expostos". Traduzindo do corporativês para o português dos mortais: invadiram a casa, reviraram as gavetas, mas juram de pé junto que não mexeram na gaveta de baixo. Acredite se quiser.

O roteiro é tão previsível que dá para recitá-lo de memória. Primeiro, o ataque acontece. Depois, a empresa descobre semanas ou meses mais tarde. Em seguida, vem o comunicado cuidadosamente redigido por advogados que custam mais por hora do que o salário mensal de quem teve os dados roubados. O texto sempre minimiza, sempre tranquiliza, sempre garante que "as medidas cabíveis foram tomadas". E o cliente, aquele ser humano cujo CPF, e-mail, telefone e histórico de viagens agora circulam em fóruns obscuros da internet, recebe como consolo a troca de um PIN. Um PIN. Como se trocar a fechadura resolvesse o problema depois que o ladrão já fez cópia da chave, fotografou os documentos e anotou os hábitos da casa.

Mas sigamos a trilha do dinheiro, que é onde mora a verdade. A Booking.com faturou mais de 21 bilhões de dólares em 2024. Investe fortunas em marketing, em algoritmos de precificação dinâmica que espremem o último centavo do viajante, em lobbies regulatórios para manter seu oligopólio sobre o mercado de reservas. Quanto investe em segurança cibernética de verdade? O suficiente para parecer que investe, nunca o suficiente para de fato proteger. Porque proteção real custa caro, não aparece no balanço trimestral como receita e não impressiona acionista em call de resultados. O dado do cliente, no cálculo frio da planilha corporativa, é um passivo que só se materializa quando vaza, e quando vaza, o departamento jurídico resolve com uma nota à imprensa e, no máximo, uma multa que equivale ao troco do cafezinho do CEO.

E aqui entra a pergunta que ninguém faz: onde estavam os reguladores? Na Europa, terra natal da Booking, a GDPR promete multas de até 4% do faturamento global para quem descuidar de dados pessoais. Na prática, essas multas viram negociação, recurso, acordo, e no fim o contribuinte europeu financia uma burocracia regulatória gigantesca que existe para dar a ilusão de proteção sem jamais proteger de verdade. O regulador precisa da empresa regulada tanto quanto o parasita precisa do hospedeiro: matá-lo seria suicídio. Então convivem, trocam funcionários entre si numa porta giratória indecente, e o cidadão comum segue exposto, nu diante do mercado de dados, vestido apenas com a fantasia de que alguém lá em cima cuida dele.

O mais perverso é que você não tem escolha real. Tente reservar um hotel sem passar por uma dessas plataformas. Tente manter seus dados fora do sistema. Você descobrirá que a economia digital construiu um modelo no qual sua informação pessoal é a moeda de entrada, o pedágio obrigatório, o tributo involuntário que você paga para participar da vida moderna. Não é muito diferente do imposto: você não concordou, não negociou, não assinou contrato em pé de igualdade. Simplesmente aceitou porque a alternativa era ficar de fora. E quando seus dados vazam, a responsabilidade é diluída numa cadeia tão longa de termos de uso, políticas de privacidade e cláusulas em letra miúda que encontrar o culpado é como procurar agulha em palheiro, só que o palheiro foi desenhado por advogados para que a agulha nunca seja encontrada.

No fim, a pergunta que importa é sempre a mesma: quem paga e quem recebe? Você paga, com seus dados, com sua privacidade, com a eterna vulnerabilidade de existir num sistema que transforma sua vida pessoal em commodity. A Booking recebe, com seus bilhões, seus acionistas satisfeitos e sua reputação intacta porque o mercado financeiro não desconta vazamento de dados de gente comum, só desconta perda de receita. E o regulador recebe, com seu orçamento gordo, seus cargos confortáveis e a perpétua justificativa de existir para resolver um problema que ele mesmo ajuda a manter insolúvel. O cofre foi arrombado, senhoras e senhores. Mas não se preocupem: trocaram o PIN.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.