O comunicado saiu com a solenidade de quem descobriu a pólvora. O país tem agora 79,3 milhões de domicílios particulares permanentes, crescimento de 2,6% em 2025, conforme o anúncio da pesquisa domiciliar da semana. O cidadão comum lê a manchete, acha bonito o número redondo e segue para a próxima aba do navegador. Mas o que, afinal, se está comemorando? Que existem mais brasileiros amontoados em residências cada vez menores, suportando prestações cada vez maiores, pagando IPTU reajustado, taxa de lixo inventada, contribuição de iluminação pública inexplicável e ainda assim tendo o privilégio de ser contados pelo Estado que os sufoca? Esse é o milagre estatístico do ano.

Convém lembrar que contar casas não é hobby de burocrata entediado. Todo império que se prezou começou pelo cadastro. O escriba egípcio media o campo do camponês para saber quanto extrair em nome do faraó. O funcionário romano registrava as cabeças de gado para calcular o tributo devido a César. O oficial medieval inventariava as chaminés da aldeia porque cada chaminé pagava imposto ao senhor. O método é sempre o mesmo: primeiro você conta, depois você cobra, por fim você regula. Quando o instituto oficial publica um número assim, não está fazendo jornalismo de curiosidades, está atualizando o mapa do tesouro, e o tesouro é o seu bolso.

Repare na mágica semântica. Chamam de domicílio particular permanente. Particular de quê, se metade do valor da sua casa é tributação embutida, do cimento ao vidro, do pedreiro autônomo que pagou INSS ao material importado que pagou dois impostos sobre o mesmo produto? Permanente para quem, se o financiamento dura trinta anos e a primeira parcela já sai vinte por cento mais cara do que o anunciado por conta de seguro obrigatório, taxa de administração e encargos que ninguém sabe explicar? Dizem particular e você, ingênuo, acredita. Mas experimente deixar de pagar o imposto municipal por dois anos seguidos e veja quem é o verdadeiro proprietário do imóvel. O aluguel ao Estado, quando não quitado, encerra qualquer dúvida sobre o domínio real.

E há o silogismo que ninguém se atreve a fazer em voz alta. Se o número de residências cresceu 2,6% no ano, e se cada residência é uma unidade fiscal, então a base tributável do município, do estado e da União expandiu-se em 2,6%. Ora, se a base expandiu, a arrecadação também. E se a arrecadação expandiu, deveria haver alívio proporcional no peso que recai sobre cada contribuinte individual. A conclusão lógica seria cortar alíquotas, reduzir taxas, devolver dinheiro. O que se viu, na prática, foi o movimento inverso: mais casas, mais impostos, mais funcionalismo contratado para administrar mais impostos sobre mais casas. A matemática do poder segue uma aritmética própria, na qual o sinal de adição funciona apenas para um lado do balcão.

Pergunte-se quem financia o próprio levantamento. O instituto que anuncia o número é sustentado pelo imposto que o próprio levantamento ajuda a calibrar. É o ouroboros perfeito do orçamento público, a serpente que se alimenta da própria cauda e ainda exige aumento salarial por serviço prestado à nação. O pesquisador bate na sua porta com a prancheta, anota a composição da sua família, a renda declarada, o número de cômodos, se tem geladeira, se tem acesso à rede de esgoto. Sai dali com dados preciosíssimos, que serão usados nos três anos seguintes para desenhar alíquotas, justificar programas, criar novas secretarias, financiar estudos acadêmicos encomendados por quem já sabia a conclusão antes da pesquisa começar. Você pagou pela pesquisa, você respondeu à pesquisa, você será cobrado com base na pesquisa. Trifecta.

A questão final, como sempre, é a mais simples e a mais evitada. Quem paga pela contagem de 79,3 milhões de residências e quem recebe o benefício de conhecê-las? Paga o morador, que sustenta o instituto com um terço da sua renda anual transformado em tributo direto e indireto. Recebe a burocracia, que transforma cada telhado em item de orçamento, cada endereço em chance de fiscalização, cada família em clientela de programa social ou alvo de nova incidência tributária. O resto é folclore estatístico para encher coluna de jornal e render entrevista no telejornal das oito. Você foi contado. Agora prepare o bolso. Da próxima vez que baterem na porta com prancheta, lembre-se de que nenhum conquistador na história jamais ordenou o recenseamento do povo por amor ao povo.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.