A goleada foi real. Cinco a um, Ary Borges, Ludmila, Dudinha Rodrigues, Kerolin e Tainá Maranhão inscreveram seus nomes numa vitória que não tem por que ser diminuída, porque futebol bem jogado é futebol bem jogado, independentemente de quem organiza o evento, quem lucra com os direitos de transmissão e quem pagou a pedra fundamental do estádio onde o espetáculo aconteceu. O problema nunca é a bola entrando na rede. O problema é o que fica fora do enquadramento da câmera.

A Arena Pantanal, em Cuiabá, foi erguida com dinheiro público para a Copa do Mundo de 2014, num custo que superou meio bilhão de reais e que, até hoje, nenhum gestor público conseguiu justificar com a sobriedade que o tamanho do número exige. Ela recebeu oito jogos na Copa, tornou-se um elefante branco de primeira grandeza nos anos seguintes, e agora surge nos noticiários enfeitada com o nome de uma competição nova que a FIFA decidiu chamar de FIFA Series, como se nomear algo em inglês já fosse suficiente para conferir-lhe legitimidade e urgência. O modelo é antigo: uma organização internacional de alcance planetário convence um governo ansioso por visibilidade a mobilizar infraestrutura pública, a isentar impostos, a garantir segurança e logística, e então parte levando os direitos comerciais enquanto o anfitrião fica com o custo da limpeza depois da festa.

Não há nada de conspiração nisso. É mecanismo tão visível quanto chato: os impérios sempre souberam que a melhor forma de extrair riqueza de uma província não é pelo canhão, mas pela festa. Roma não precisava invadir novamente as cidades que já havia pacificado; bastava organizar os jogos, enviar os gladiadores e deixar que a população local construísse o coliseu com os próprios impostos. A novidade, nos tempos modernos, é que o circo assinou contrato, tem departamento jurídico e emite nota fiscal. A FIFA não é uma exceção à regra: é a regra funcionando com perfeição técnica. Ela não produz nada, não arrisca capital próprio de forma proporcional ao que extrai, não responde a nenhum eleitorado e não presta contas a nenhuma assembleia. É uma entidade supranacional de fins privados operando com os privilégios que só o Estado consegue conceder, porque só o Estado tem o monopólio da força que obriga o contribuinte a pagar o ingresso mesmo quando não quer assistir ao jogo.

As jogadoras, repita-se, não têm culpa de nada disso. Ary Borges chutou com competência. Ludmila correu como se soubesse onde a bola ia cair antes de ela cair. O resultado de 5 a 1 contra uma seleção asiática de respeito não foi fabricado por nenhuma burocracia, foi conquistado em campo por atletas que treinam com seriedade e que merecem o reconhecimento que a vitória traz. Misturar a qualidade do desempenho esportivo com a crítica à arquitetura institucional que o enquadra não é injustiça com as atletas, é exatamente o exercício de distinção que a análise honesta exige. O bolo pode ser bom e o padeiro pode ser ladrão; as duas coisas não se cancelam.

O que deveria incomodar, e não incomoda porque o brasileiro aprendeu a separar o cheque da emoção com uma habilidade que chega a ser digna de estudo clínico, é a naturalidade com que se aceita que grandes competições internacionais, privadas em seus lucros e públicas em seus custos, encontrem sempre portas abertas em Brasília. Não é de hoje. Não é deste governo nem do anterior. É uma característica estrutural de um Estado que confunde grandeza nacional com palco internacional, e que paga o aluguel do palco com dinheiro de quem nunca vai sentar na plateia. A seleção feminina jogou bem demais para merecer ficar presa nessa discussão, mas a discussão existe independentemente da qualidade do jogo, e desviar dela por respeito às jogadoras é um gesto de covardia disfarçado de elegância.

Cinco a um. Parabéns às atletas. A conta, como sempre, fica para quem não foi consultado.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.