A cena beira o constrangimento histórico. Enviados do governo federal cruzam o Atlântico de chapéu na mão, batem na porta de comissários em Bruxelas, depois almoçam em Paris com franceses que sempre detestaram nossa carne porque ela é melhor e mais barata que a deles, e voltam aplaudidos pela imprensa nacional como se tivessem conquistado algo. Conquistado o quê, exatamente? O direito de continuar vendendo aquilo que já vendíamos antes do tal Pacto Verde europeu existir, mediante o pagamento de uma taxa invisível chamada conformidade regulatória. Isso não é diplomacia, é vassalagem com terno italiano.

O truque é antigo e funciona desde que o mundo é mundo. Quando uma indústria local não consegue competir no preço nem na qualidade, ela não corre atrás de produtividade, ela corre atrás do parlamento. O pecuarista francês, cujo quilo de picanha custa o salário mínimo de um país inteiro, não vai à fazenda melhorar o rebanho; ele vai ao deputado pedir uma barreira sanitária com nome bonito. Inventa-se então uma exigência ambiental, embrulha-se em papel verde com laço de sustentabilidade, e pronto, o concorrente brasileiro precisa instalar chip em cada bezerro, rastrear cada capim mastigado e provar genealogicamente que a vaca não andou perto de árvore derrubada em 2008. O nome técnico disso é regulação. O nome honesto é protecionismo travestido.

E quem paga essa fantasia, no fim das contas? Não é o burocrata em Bruxelas, que recebe em euros isentos de imposto. Não é o ministro brasileiro, que gasta diária de hotel cinco estrelas para negociar a própria humilhação. Quem paga é o produtor do interior de Goiás, do Mato Grosso, do Pará, que vai precisar contratar consultoria, comprar software, instalar sensor, treinar funcionário e refazer cerca para atender uma norma redigida por gente que confunde zebu com búfalo. E quem paga junto é o consumidor brasileiro, porque todo custo de conformidade na ponta da exportação se transfere, mais cedo ou mais tarde, para o preço do bife no açougue da esquina. O imposto que ninguém votou se chama burocracia importada.

Há ainda uma camada de comédia involuntária no enredo. O mesmo bloco europeu que nos sermoneia sobre desmatamento subsidia, com dinheiro público, uma agricultura tão devastadora que precisa de bilhões anuais para sobreviver, transformou o próprio continente num museu agrícola dependente de auxílio estatal, e ainda tem coragem de exigir certificado de virgindade ecológica de quem alimenta meio mundo com eficiência real. É a velha cartilha do colonizador moderno: você produz, eu defino as regras, e quando minha indústria não aguenta a concorrência eu mudo as regras no meio do jogo. Era assim no século dezenove com o ópio e o algodão, é assim hoje com soja e proteína animal. Só trocaram a canhoneira pelo formulário em PDF.

O mais grave, porém, não é a chantagem europeia, que é previsível como chuva em janeiro. O mais grave é a postura de quem nos representa. Em vez de dizer com todas as letras que o Brasil é potência agropecuária e que quem precisa da nossa carne é a Europa, e não o contrário, monta-se uma operação suplicante para entregar a soberania produtiva embrulhada em planilha. Negocia-se a própria submissão e chama-se aquilo de vitória diplomática. Enquanto isso, a China, que não dá lição de moral nem pede certificado de bezerro vegano, compra cada vez mais do que produzimos, em silêncio, e paga em dia. A diferença entre um parceiro comercial e um senhor feudal está aí, escancarada, e mesmo assim insistimos em ajoelhar para o lado errado do tabuleiro.

No fim, a pergunta que importa é a de sempre, aquela que nenhum diplomata quer responder em voz alta. Quem ganha com a rastreabilidade até setembro? Ganha o consultor europeu certificador, ganha o fornecedor de software de monitoramento, ganha a indústria francesa protegida do concorrente eficiente, ganha o burocrata que justifica o próprio salário. E quem perde? Perde o vaqueiro, perde o frigorífico, perde o caminhoneiro, perde o consumidor, perde a soberania nacional vendida a prazo em parcelas de exigência regulatória. Quando descobrirem que o boi pagou a conta da vaidade alheia, já será setembro, e haverá novas exigências esperando na fila. É assim que se desmonta um país sem disparar um tiro, apenas com canetada bem redigida em três idiomas.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.