O embaixador em Roma diz que aguarda, com a paciência de quem já sabe o final, a publicação da motivação que anulou a extradição de Carla Zambelli e a devolveu à liberdade. O Itamaraty, esse monumento de mármore sustentado por dinheiro que ninguém deu voluntariamente, agora adota cautela, palavra elegante para descrever o constrangimento de quem foi desmontado em causa própria por um tribunal estrangeiro. A mudança, segundo o diplomata, foi brusca. Brusca para quem confundiu vingança política com cooperação jurídica internacional, evidentemente.
Convém lembrar o arranjo. Uma deputada condenada num processo cuja celeridade espantaria qualquer juiz romano do tempo das Doze Tábuas atravessa o Atlântico e pede abrigo num país que ainda lembra, com cicatrizes vivas, o que significa perseguir adversários por opinião. O governo brasileiro, em vez de tratar o caso como matéria técnica, transformou-o em vitrine ideológica, mobilizou advogados pagos com recursos públicos, acionou canais diplomáticos, pressionou, insinuou, ameaçou. E recebeu, em resposta, aquilo que tribunais sérios costumam devolver a quem chega de cartola na mão: um chute educado, lavrado em latim jurídico.
Sigamos o dinheiro, que é sempre o melhor guia em terreno escorregadio. Quem pagou a operação de extradição? O contribuinte. Quem pagou as passagens, os honorários, os jantares, os briefings, os comunicados oficiais? O contribuinte. Quem se beneficiou politicamente da expectativa de ver a adversária algemada no aeroporto de Guarulhos sob holofotes? Os mesmos que vivem da indignação cenográfica como outros vivem de aluguel. Quem perdeu? O sujeito que acorda às cinco da manhã, paga imposto sobre tudo o que respira e descobre, pelo jornal, que sua embaixada em Roma foi humilhada porque alguém em Brasília achou que a Justiça italiana era extensão administrativa do Planalto.
Há aqui um silogismo que dispensa floreios. Se a extradição era juridicamente sólida, não haveria reversão. Houve reversão. Logo, a extradição não era juridicamente sólida. O resto é prosa decorativa para encobrir o constrangimento. Quando um magistrado europeu, com toda a tradição que carrega nos ombros, olha para o pedido e devolve com a anotação de que algo não fecha, o problema não está no tradutor, no fuso horário ou na mudança brusca. Está no produto entregue. E o produto entregue foi um dossiê político embrulhado em papel diplomático.
O mais saboroso é o vocabulário. Cautela, avaliar com calma, aguardar a motivação. São as mesmas expressões que governos usam quando perdem licitação, quando o helicóptero cai, quando o navio encalha. A burocracia tem um dicionário próprio para administrar o ridículo, e esse dicionário custa caro. Custa em salário de embaixador, em assessoria de imprensa, em viagem de comitiva, em silêncio comprado com cargo. Tudo isso para que, ao fim, se descubra o óbvio: tribunal estrangeiro não é serviçal do projeto de poder local. Que descoberta, senhores. Digna de prêmio.
Resta a moral da fábula, que é velha como a primeira aduana do mundo. Quando o aparelho estatal se mobiliza para resolver pendências políticas usando ferramentas jurídicas, o feitiço encontra, mais cedo ou mais tarde, um juiz que não está na folha de pagamento. A Itália foi esse juiz desta vez. Da próxima, será outro. E enquanto a conta da farra chega pelo carnê do IPTU, do IPVA, do imposto sobre a conta de luz e sobre o pãozinho da manhã, o contribuinte permanece na função para a qual foi cuidadosamente treinado: pagar, calar e aplaudir quando lhe mandam. Quem paga, perde. Quem recebe, sorri. O resto é diplomacia.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.