Seis jogos, seis vitórias. O retrospecto contra a seleção egípcia é apresentado pelos cadernos esportivos com a mesma reverência com que monges medievais anunciavam relíquias de santo, e o brasileiro, devotado, engole a estatística como se fosse oráculo. Vamos ao fato concreto antes que a emoção tome conta. Seis confrontos ao longo de décadas, contextos completamente distintos, gerações de jogadores que jamais se cruzaram, e mesmo assim a manchete vende a ideia de que sábado já está decidido. É a velha lógica do jogador de cassino que viu o vermelho sair cinco vezes seguidas e aposta a casa no sexto giro. A roleta, gentilmente, não se lembra do que aconteceu antes.
Mas o ponto que ninguém ousa tocar não é o futebol em si, é o arranjo financeiro que se monta em torno dele. O amistoso é vendido como teste, mas teste para quem? Para a comissão técnica que precisa justificar o salário milionário, para os patrocinadores que precisam estampar o escudo na televisão, ou para o cidadão que paga imposto sobre cada lata de cerveja consumida durante a transmissão? Cada bola rolando é uma engrenagem girando, e cada engrenagem tem um dono. A entidade que organiza a seleção, isenta de impostos como se fosse instituição de caridade, acumula contratos, royalties, direitos de imagem e cotas de transmissão num volume que envergonharia metade das empresas listadas em bolsa. Caridade, claro, é o que ela presta a si mesma.
O silogismo é desconfortável, mas se impõe. Toda atividade que movimenta bilhões beneficia alguém de forma concentrada. A seleção movimenta bilhões. Logo, há beneficiários concentrados, e eles não estão na arquibancada batendo palma. Estão nas salas climatizadas onde se assinam contratos de patrocínio, nos gabinetes onde se renegociam dívidas tributárias que o cidadão comum jamais conseguiria parcelar, nas confederações que distribuem ingressos como cortesia a deputados e a juízes de tribunais superiores. O torcedor, esse, paga a conta em três frentes simultâneas, pela televisão por assinatura, pelo imposto embutido no produto patrocinador e pelo financiamento público disfarçado de incentivo ao esporte.
A história ensina, para quem tem paciência de ler, que pão e circo nunca foram metáforas. Foram política pública. O imperador romano que distribuía trigo e organizava jogos no Coliseu sabia perfeitamente o que estava comprando, e o que comprava era silêncio. Não o silêncio do povo calado, que esse é fácil de obter com força bruta, mas o silêncio mais valioso, o do povo barulhento gritando pela coisa errada. Hoje a fórmula segue idêntica, apenas terceirizada. A seleção entra em campo, o noticiário enche a tela com retrospectos contra o Egito, e enquanto isso tramita no Congresso a próxima rodada de aumento de gastos, a próxima medida provisória que cria imposto novo, a próxima nomeação para uma estatal que ninguém vai fiscalizar.
Não se trata de ser contra o futebol, isso seria estupidez de intelectual de café. Trata-se de reconhecer que o entusiasmo coletivo é matéria-prima política, e quem controla a narrativa do entusiasmo controla a agenda do dia seguinte. Quando todos os jornais, todos os comentaristas, todas as redes sociais convergem para o mesmo assunto na mesma semana, o cidadão minimamente atento deveria desconfiar. Convergência total é sinal vermelho, não verde. Significa que alguém precisa muito que se olhe para um lado específico, justamente porque do outro lado está acontecendo coisa que não pode ser vista. Pergunte-se o que está sendo votado, o que está sendo assinado, o que está sendo enterrado nesta semana de amistoso. A resposta, garanto, vale mais do que o placar de sábado.
O brasileiro vai vencer o Egito? Provavelmente. A história individual de cada partida, porém, não se decide pelo retrospecto de jogos antigos, decide-se em campo, com onze homens contra onze homens, e qualquer treinador honesto sabe disso. A história coletiva do país também não se decide pela copa que vem aí, decide-se nas decisões diárias sobre quanto Estado se aceita carregar nas costas, quantos impostos se aceita pagar em silêncio, quantos arranjos se aceita normalizar em nome da unidade nacional. O hino vai tocar, a torcida vai cantar, e na segunda-feira a conta chega. Sempre chega. E quem assina embaixo, invariavelmente, é o mesmo de sempre.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.