O calendário marca segunda, o país amanhece molhado em meia dúzia de estados, e eis que o instituto oficial aparece de peito estufado anunciando quatro alertas meteorológicos simultâneos, como se a chuva no Norte em abril fosse alguma novidade geológica capaz de justificar orçamento, cargo comissionado e nota à imprensa. A natureza faz o que sempre fez desde que o planeta gira, e a estrutura estatal apresenta a fatura como se tivesse produzido o fenômeno.

Vale a pergunta primária, aquela que os jornais esquecem de fazer porque dependem do release: quem paga e quem recebe? Paga o sujeito que tem dez por cento do salário raspado em imposto de renda, mais um quarto pulverizado em tributos invisíveis embutidos no pão, na gasolina e na conta de luz. Recebe a burocracia meteorológica federal, seus satélites, suas diárias, suas secretarias, seus assessores de comunicação empenhados em transformar a previsão óbvia de nuvem escura em manchete solene de utilidade pública.

Há algo de cômico e de sinistro na solenidade com que se anuncia o trivial. É como se um padeiro convocasse a imprensa toda manhã para informar que o pão está quente. A função existe, ninguém discute que saber do temporal é útil, mas a pergunta embaraçosa é por que o serviço precisa ser monopólio estatal financiado coercitivamente, quando aplicativos privados entregam a mesma informação com mais precisão, em tempo real, sem obrigar ninguém a financiar cadeiras vitalícias. O cidadão já foi convencido de que nuvem é assunto de governo, e engoliu a tese com a mesma docilidade com que aceitou que educação, saúde e aposentadoria também fossem.

O truque é antigo e funciona sempre. Pega-se um fenômeno natural ou uma necessidade espontânea do mercado, veste-se a coisa com uniforme oficial, cobra-se compulsoriamente de todos, e na sequência vende-se o resultado como dádiva do poder público. Quando o alerta acerta, é prova da eficiência do Estado. Quando erra, pede-se mais verba para aprimorar os sistemas. Quando não existe desastre algum, também está ótimo, porque o aparato justifica sua própria existência pela prevenção hipotética. Não há cenário em que o órgão perca. Heads, o Estado ganha; tails, o contribuinte paga.

O mais curioso é observar a passividade com que se recebe esse tipo de comunicado. Quatro avisos em quatro regiões vira notícia nacional, como se fosse façanha administrativa e não a descrição banal de que o Brasil, país continental e tropical, tem clima variado. É o mesmo espírito que transforma obra atrasada em entrega histórica, imposto novo em pacto social, e controle de preço em defesa do consumidor. A linguagem do poder precisa inflar o ordinário para justificar sua fatura, e a imprensa, domesticada, repete o enquadramento sem piscar.

No fim, o que resta é a velha equação, nua e sem cerimônia. Alguém trabalha, alguém paga, alguém recebe, e alguém faz discurso em cima do trabalho alheio. Chove no Norte, chove no Sul, chove no Centro-Oeste, e segue chovendo também sobre a folha de pagamento do contribuinte, que financia a própria infantilização a cada boletim divulgado com ar de descoberta. A previsão do tempo a gente olha pela janela. A conta, essa, continua chegando pelo correio.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.