Sábado, 22h30, Arena Pantanal, Cuiabá. Brasil e Canadá decidem o troféu da tal FIFA Series, um torneio amistoso que apareceu no calendário como cogumelo depois da chuva, sem que a torcida tivesse reivindicado, sem que a imprensa tivesse profetizado, sem que ninguém, absolutamente ninguém, tivesse exigido mais um jogo decorativo entre a seleção canarinho e um adversário que joga futebol como brasileiro joga hóquei no gelo. A transmissão vai pela TV aberta e pelo streaming do costume, e milhões vão sentar no sofá aplaudindo o espetáculo sem perceber que o ingresso mais caro da noite foi pago lá atrás, em cada imposto recolhido, em cada boleto do IPVA, em cada centavo embutido naquele almoço de domingo.
Convém lembrar o pequeno detalhe que a solenidade dos narradores esportivos costuma varrer para debaixo do gramado: a Arena Pantanal custou aos cofres públicos algo próximo de 600 milhões de reais, erguida às pressas para uma Copa que passou como boi pela porteira, deixando atrás de si um elefante de concreto que o povo de Cuiabá sustenta até hoje, com manutenção cara, público irregular e aquela sensação recorrente de que a festa acabou antes de começar. Agora o elefante ganha nova fantasia, desta vez de anfitrião internacional, e quem desfila no picadeiro não é o contribuinte matogrossense, é o cartolão que vai cortar a fita sorrindo para a câmera, como se tivesse inventado a roda.
A pergunta incômoda, aquela que nenhum comentarista de rodada vai fazer antes do hino, é quem ganha com tudo isso. Ganha a federação, que cobra cachê da seleção para exibi-la em amistoso fabricado. Ganha a emissora, que vende cota de patrocínio em prime time sabático. Ganha o governador local, que aparece no camarote acenando como se tivesse produzido o gramado com as próprias mãos. Ganha o prefeito, que posa ao lado do troféu. E perde, como sempre, o sujeito anônimo que nunca vai pisar naquele estádio, mas cuja fatia do salário foi carimbada na construção, no financiamento subsidiado, na isenção tributária, na conta de luz que o poder público esqueceu de pagar e que todo mundo, exceto o responsável, acabou quitando.
Há uma lógica antiga nesse truque, e ela não nasceu ontem. Roma entendeu cedo que plebe entretida não pergunta de grão. Pão e circo, circo e pão, e enquanto a arena ruge o cidadão esquece que o celeiro está vazio, que a moeda está sendo raspada pelas bordas, que o senado vota em silêncio aquilo que jamais seria votado em praça pública. O gladiador de hoje veste chuteira, o imperador virou dirigente, e o Coliseu tem cobertura retrátil e Wi-Fi. Muda o figurino, não muda o roteiro. O povo aplaude de pé exatamente no momento em que deveria estar de pé conferindo o bolso.
Que fique claro, porque a tribo do torpedo histérico costuma confundir análise com ranço: ninguém aqui defende que brasileiro não torça, não grite gol, não chore vitória. Torcer é direito sagrado, é da natureza humana esse gesto quase religioso de projetar a própria alegria no movimento alheio. O que não é direito, nem sagrado, nem natural, é ser obrigado a pagar pelo palco onde outro se diverte, aplaudir o árbitro que o multou, financiar o cartolão que o despreza e ainda chamar isso de patriotismo. Patriotismo, quando é genuíno, não precisa de subsídio. Só o falso exige orçamento público para se manter de pé.
Então assista ao jogo, torça com vontade, xingue o juiz, abrace a família no gol. Mas guarde no canto da memória, enquanto o narrador sobe o tom na decisão por pênalti, que o verdadeiro campeonato nunca foi disputado dentro das quatro linhas. O troféu que importa foi entregue há muito tempo, longe das câmeras, num gabinete climatizado onde alguém assinou o cheque que você não viu passar. A bola rola, o povo delira, a conta chega depois. Sempre chega. E quem paga, como de hábito, não é quem aparece na foto com a taça.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.