Vitor Rangel Aguiar, vinte e sete anos, pegou uma faca e encerrou a vida da ex-namorada a golpes, no Paraguai, onde ambos estudavam medicina. A vítima, catarinense, tinha o currículo bonito que a classe média brasileira persegue como quem persegue salvação: trocar o país pelo vizinho mais barato, comprar o diploma branco, voltar com jaleco e estetoscópio. Não voltou. Voltou em caixão. E o algoz, colega de universidade, sumiu na fronteira porosa entre dois Estados que cobram impostos com eficiência militar mas perdem assassinos com a mesma desenvoltura com que perdem malas em aeroporto.
Houve, claro, o ritual. O governo paraguaio acionou o tal Comando Tripartite, esse nome pomposo que serve para anunciar nos jornais que três burocracias vão se reunir para fazer aquilo que nenhuma das três faria sozinha, ou seja, nada com três carimbos em vez de um. É o teatro de sempre. Quando a tragédia já está consumada, brota da terra uma floresta de sigilas, secretarias, gabinetes especiais, observatórios da violência, núcleos de enfrentamento, comitês de monitoramento. Cada caixão pago pelo contribuinte gera uma dúzia de salários públicos vitalícios. Siga o dinheiro: o feminicídio é caro para a família da morta e lucrativo para a indústria do combate ao feminicídio.
Convém, aqui, fazer a pergunta que ninguém faz porque a resposta envergonha. Quantas campanhas publicitárias, quantos cordões de conscientização, quantas cartilhas distribuídas em escolas, quantos slogans pintados em delegacias da mulher impediram a faca de Vitor? Zero. A premissa é simples: se as políticas públicas anunciadas há vinte anos funcionassem como prometem, a curva já estaria em queda livre. Não está. Logo, ou as políticas não funcionam, ou funcionam para outra coisa que não o que está escrito no folheto. Há uma terceira hipótese, ainda mais cruel, que é serem desenhadas justamente para não funcionar, porque o problema resolvido demite o resolvedor.
O caso ainda escancara a piada que virou a soberania nas três fronteiras. O brasileiro vai estudar no Paraguai porque o cartel das faculdades de medicina, blindado por regulação caprichada na capital federal, transformou a vaga aqui dentro num bem de luxo digno de joalheria suíça. O conselho da categoria fecha portas, o Estado finge que protege o paciente, e o resultado é que jovens de classe média atravessam a divisa para buscar lá fora aquilo que a corporação proíbe aqui dentro. Quem paga essa conta? A família que se endivida em guarani. Quem recebe? Os médicos brasileiros já estabelecidos, que dormem tranquilos com a concorrência podada por decreto. A vítima estava no Paraguai porque o Brasil tornou caro demais ser brasileiro estudando no Brasil.
E há, no fundo, a lição mais antiga e mais ignorada. O monopólio da violência, esse argumento que o Estado repete desde que aprendeu a falar latim, justifica-se sob a alegação de que, sem ele, viveríamos no caos hobbesiano. Mas o caos chegou mesmo assim, com carimbo, processo e numeração de protocolo. Uma jovem desarmada, em país estrangeiro, sem direito a portar o que quer que fosse, foi morta por um homem que sabia exatamente que ela estaria desarmada. O Estado paraguaio cobra dela o monopólio da força e devolve, no momento decisivo, uma certidão de óbito. O Estado brasileiro cobra da família o monopólio da justiça e devolve, no momento decisivo, um Comando Tripartite. É um arranjo curioso: o cliente paga adiantado e o serviço só chega depois do enterro.
Resta a pergunta de sempre, a única que importa quando a poeira retórica assenta. Quem pagou pela vida dessa moça, em impostos, em diplomas inacessíveis, em desarmamento compulsório, em propaganda oficial sobre conscientização? Ela mesma, e a família dela. Quem recebeu? A burocracia que agora abrirá inquérito, o cartel médico que continuará vendendo vaga a peso de ouro, o assassino que conta com a ineficiência de três Estados para sumir no mato. O rei continua nu. E continua, descaradamente, cobrando ingresso para o desfile.
Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.