Há uma cidade a duzentos e quarenta e quatro quilômetros da capital paulista onde a probabilidade de esbarrar com um doutor na fila do açougue é maior que em qualquer outro ponto da América Latina. São Carlos, este nome que soa a vilarejo bucólico, abriga a maior densidade de pesquisadores do continente, e o detalhe saboroso, aquele que os arautos do estatismo preferem engolir em silêncio, é que ninguém em Brasília acordou um dia decidindo que aquele pedaço do interior paulista seria o vale do silício tupiniquim. A coisa simplesmente aconteceu, e quando algo simplesmente acontece num país onde o Estado se mete até no rótulo do feijão, vale a pena investigar por quê.
A trilha do dinheiro, sempre ela, conta uma história curiosa. São Carlos não nasceu de um decreto presidencial, não foi parida por um plano quinquenal, não recebeu o batismo de uma agência de fomento com sigla de cinco letras. Ela cresceu na sombra discreta de duas universidades, de instituições de pesquisa que foram se sedimentando ao longo de décadas, e principalmente da iniciativa de gente que decidiu ficar, abrir empresa, contratar, produzir patente, exportar tecnologia. O capital humano se concentrou ali não porque alguém ordenou, mas porque o ambiente permitiu, e há uma lição inconveniente neste detalhe que os engenheiros sociais de plantão fingem não enxergar.
Compare-se, por gentileza, com as zumbilândias industriais espalhadas pelo país, aquelas cidades que receberam fábricas mediante isenção fiscal escandalosa, terreno de graça, energia subsidiada, financiamento a juros de pai para filho, e que hoje são fantasmas econômicos quando o subsídio acaba. Manaus que o diga. Camaçari que confirme. O modelo de prosperidade comprada com dinheiro confiscado do contribuinte do Sul para gerar polos artificiais no resto do mapa produziu, ao longo de cinquenta anos, exatamente o que produz a alquimia, ouro de mentira que volta a ser chumbo quando o feitiço perde a magia. São Carlos floresceu pelo caminho oposto, pelo acúmulo orgânico, pelo investimento privado que segue o talento, pelo talento que segue a liberdade de produzir.
Note-se ainda a ironia deliciosa do quadro. O brasileiro médio, esmagado por uma carga tributária digna de feudo medieval, vê seu dinheiro evaporar em ministérios que se multiplicam como coelhos no cio, em programas de inovação que financiam startups de amigos do rei, em editais cujo critério principal é a cor da camisa do beneficiário. Enquanto isso, no canto do mapa, uma cidade comum vai produzindo ciência de verdade, atraindo gente competente, exportando conhecimento, e o faz porque, em larga medida, foi deixada em paz tempo suficiente para que o processo acontecesse. A boa política industrial brasileira sempre foi a política industrial que ninguém aplicou.
O cidadão que se muda para lá hoje, atraído pela qualidade de vida, pela renda média superior, pelas escolas decentes, pelo trânsito que ainda não virou via crúcis, está votando com os próprios pés num modelo que o discurso oficial despreza. Está dizendo, sem precisar gritar, que prefere a cidade que se construiu por baixo à metrópole que se desorganizou por cima. E enquanto o consenso dos especialistas insiste que a salvação do país virá de mais Estado, mais planejamento, mais agência reguladora, mais comitê interministerial com nome em inglês, o sujeito comum vai migrando para onde o Estado pesa menos e o trabalho rende mais. Quando todo mundo concorda numa direção e os fatos apontam para o lado oposto, costuma ser sinal de que a verdade está acampada do lado de fora do consenso.
Resta a pergunta de sempre, aquela que abre e fecha qualquer análise honesta. Quem paga e quem recebe na história brasileira da inovação? Paga o contribuinte anônimo, esmagado por impostos que financiam a parafernália estatal de inovação fake. Recebe o conglomerado de pesquisadores cortesãos, as empresas com lobby afiado em Brasília, os burocratas que vivem de gerenciar verba alheia. São Carlos é a exceção que escapou da regra, e é por isso mesmo que prospera. Não há mistério, há apenas a teimosia da realidade em desmentir, dia após dia, a teologia do planejamento central.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.