O nome Jeffrey Epstein é, a esta altura, menos um nome e mais um símbolo, a prova mais bem documentada de que existe uma classe de intocáveis cujo acesso ao poder é tão profundo e tão ramificado que nem a morte resolve. Ele morreu na prisão em circunstâncias que fariam corar qualquer roteirista de thriller barato, e o assunto foi sendo cuidadosamente enterrado em camadas de novos escândalos, de novas notícias urgentes, de novas distrações providenciais. Pois bem: uma ex-modelo brasileira acaba de anunciar que tem provas capazes de envolver Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e Melania Trump, primeira-dama, em algo que vai muito além de frequentar as mesmas festas que o defunto financista. A acusação é grave, a fonte é desconhecida do grande público, e o timing é, como sempre nesses casos, suspeito o suficiente para que nenhuma hipótese seja descartada antes de examinar os interesses em jogo.
Comecemos pelo que sabemos. O dossiê Epstein, os documentos judiciais que foram sendo liberados a conta-gotas ao longo dos últimos anos, contém nomes. Muitos nomes. Nomes de políticos, de executivos, de figuras da mídia, de pessoas que constroem consensos e dirigem narrativas. Boa parte desses documentos saiu sem produzir o efeito sísmico que o público ingênuo esperava, porque o poder tem uma capacidade extraordinária de absorver revelações sem colapsar, desde que controle os canais pelos quais as revelações chegam ao público. O escândalo não mata quem controla o microfone. E quem controla o microfone, aqui como em qualquer lugar do mundo, não é o povo, não é a imprensa independente, não é o juiz corajoso de plantão. É quem financia, quem nomeia, quem ameaça discreta e eficazmente. Essa é a lição mais velha da história do poder organizado, e ela continua válida hoje como era válida nos salões de Versalhes.
A pergunta que o bom leitor deve fazer não é "será que ela tem mesmo as provas?" A pergunta é: quem lucra com a existência dessas supostas provas circulando agora, neste momento específico da política americana? Trump voltou ao poder, tem inimigos dentro e fora do próprio governo, opera num ambiente de hostilidade institucional crônica, e está sob pressão de múltiplas frentes simultaneamente. Uma acusação de pedofilia, ainda que não comprovada judicialmente, é o tipo de munição que não precisa de condenação para fazer estrago. Basta circular. Basta ser repetida. Basta que o nome fique associado à frase. É o mecanismo mais antigo da guerra política: você não precisa provar, você precisa apenas contaminar. Os romanos chamavam isso de fama, a reputação que precede o homem e que, uma vez manchada, nunca se limpa completamente, mesmo quando se prova a inocência, que quase nunca se prova porque a absolvição não tem o mesmo apelo dramático que a acusação.
Dito isso, o inverso também é verdadeiro e precisa ser dito com a mesma clareza: o fato de a acusação ser conveniente para os inimigos políticos de Trump não a torna automaticamente falsa. O dossiê Epstein tem a peculiaridade sinistra de ser simultaneamente utilizado por todos os lados como arma política, o que significa que ninguém tem interesse genuíno em investigá-lo até o fim. Os que poderiam ser inocentados temem que a investigação exponha outros vínculos incômodos. Os que poderiam ser incriminados obviamente bloqueiam o processo. E os que usam o arquivo como alavanca política só querem o efeito retórico, não a verdade jurídica, porque a verdade jurídica fecha o arquivo e eles precisam que ele continue aberto, fumegante, disponível para uso quando necessário. O arquivo Epstein não é uma investigação. É uma usina de chantagem de uso continuado.
A ex-modelo brasileira, cujo nome pouco importa neste momento porque o que importa é a estrutura do jogo, entrou num território onde o risco pessoal é proporcional à gravidade do que se alega. Gente com dossiês verdadeiros sobre os poderosos costuma acabar mal de maneiras variadas e criativas. Gente com dossiês falsos sobre os poderosos costuma ser destruída com eficiência clínica. Em ambos os casos, o poder sai intacto, a narrativa é controlada, e o público fica com a sensação difusa de que "tem alguma coisa aí" sem jamais saber exatamente o quê. Isso não é acidente. É o produto final de um sistema que foi desenhado não para revelar a verdade, mas para gerenciá-la. Quem paga para que o arquivo duerma? Quem paga para que ele acorde? São perguntas diferentes, com respostas diferentes, e as respostas explicam mais sobre o poder real do que qualquer eleição jamais explicará.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.