O BRB, aquele banco que existe porque o governo do Distrito Federal decidiu, décadas atrás, que precisava de uma instituição financeira própria para fazer o que os bancos privados já fariam melhor e mais barato, está passando por um "momento de dificuldade". A frase é da governadora Celina Leão, e merece o registro pela pura delicadeza eufemística. Banco público não entra em crise por acidente meteorológico. Banco público quebra, sempre, pelo mesmo motivo: alguém usou o dinheiro dos outros para financiar a agenda política de quem estava no comando. E agora, diante do rombo, vem o ritual conhecido, a troca de gestores, o discurso da profissionalização, a promessa solene de transparência no processo.

Observe a mecânica com calma, porque ela se repete com a precisão de um relógio suíço mal calibrado. Primeiro, o banco estatal é vendido ao público como instrumento de desenvolvimento regional, braço financeiro do povo, alternativa aos bancões gananciosos. Segundo, ele é loteado entre apadrinhados, vira balcão de crédito farto para o aliado do momento, patrocinador de projetos que nenhum banco privado tocaria nem com luvas de amianto. Terceiro, quando a conta chega, descobrem que era preciso, afinal, chamar "profissionais técnicos". Os mesmos profissionais técnicos que não foram chamados antes, porque antes era festa e agora é ressaca. A troca de nomes no alto escalão, nesse caso, não é reforma, é maquiagem em cadáver.

E sigamos o dinheiro, que é o único vestígio honesto nessa história. Quem paga o prejuízo de um banco público? O contribuinte do DF, sempre. Ou diretamente, via aporte do Tesouro local, ou indiretamente, via deterioração do crédito da instituição, que encarece tudo, inclusive o custo de emitir dívida pública. Quem recebeu enquanto a banda tocava? Devedores privilegiados, fornecedores de serviços de comunicação, consultoria e jurídico, patrocinadores culturais escolhidos a dedo, operações financeiras mirabolantes cujo retorno ficou no powerpoint. O esquema clássico: socializa a perda, privatiza o lucro, e no fim aparece um terno bem cortado falando em governança.

A palavra "transparência" também merece autópsia. Um governo verdadeiramente transparente não precisa anunciar transparência, ele simplesmente coloca os números na mesa e deixa o cidadão julgar. Quando um político sobe ao palco para jurar que agora, desta vez, o processo será transparente, ele está confessando, sem querer, que até ontem não era. É o mesmo fenômeno do marido que chega em casa dizendo "a partir de agora vou ser honesto com você", e a esposa, se for esperta, já começa a contar os talheres. Transparência anunciada é opacidade pega no flagra, tentando se vestir de virtude.

O mais curioso nessa novela é que ninguém faz a pergunta óbvia, aquela que derrubaria o castelo inteiro. Por que o Distrito Federal precisa de um banco? Para fazer o quê, exatamente, que o Itaú, o Bradesco, o Santander, o Nubank e meia dúzia de cooperativas de crédito não façam melhor, mais barato e sem sangrar o contribuinte? A resposta é simples e embaraçosa. Precisa para servir como caixa eletrônico político, como instrumento de barganha eleitoral, como fonte de cargos comissionados e patrocínios alinhados. Retirado esse propósito, o BRB é uma redundância cara, um anacronismo mantido à força por quem se beneficia dele. O cidadão de Brasília, esse sim, seria servido muito melhor se a "solução" anunciada fosse a privatização pura e simples, com os recursos abatendo a dívida local. Mas isso, claro, não está sobre a mesa, porque quem está na mesa come do banco.

Então saúdem, com a devida reverência, os novos "profissionais técnicos" que vão pilotar o voo cego. Eles trocarão as poltronas, reorganizarão os organogramas, farão apresentações bonitas em auditórios climatizados. Daqui a três, cinco, dez anos, um novo governador anunciará, com a mesma cara compenetrada, que o BRB está passando por "um momento de dificuldade" e que, agora sim, profissionais técnicos assumirão com total transparência. E a roda gira, e o contribuinte paga, e o rei, nu como no primeiro dia, continua recebendo aplausos das crianças bem comportadas que fingem ver o manto bordado.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.