A cena se repete todo ano com a pontualidade de um cobrador de imposto. Uma farmacêutica de pipeline sobe ao palco de uma conferência bancária, no caso a do Cantor Fitzgerald, exibe slides com moléculas de nomes impronunciáveis, cita fases clínicas como se fossem trimestres de lucro, e a plateia de gestores de fundo aplaude não a ciência, mas a promessa de valorização da ação. A BridgeBio agora faz exatamente isso, colocando seu pipeline de lançamentos em vitrine, e todo mundo finge que essa é uma discussão sobre saúde pública quando é, na verdade, uma discussão sobre engenharia financeira revestida de jaleco branco.

Olha, ninguém aqui é contra empresa de biotecnologia ganhar dinheiro. Pelo contrário, o lucro é o único sinal confiável de que alguém está de fato resolvendo um problema humano em vez de fingir que resolve. O problema não é o lucro, é o teatro. O teatro em que a companhia sobrevive não pelo remédio que vende, mas pela expectativa que vende, e a expectativa depende de uma cadeia de subsídios, patentes estendidas, aprovações regulatórias aceleradas por lobby e compradores públicos garantidos por sistemas de saúde estatizados que jamais negociam preço porque não é o dinheiro deles que está saindo do bolso.

Siga o dinheiro e você entende a mágica. O contribuinte americano financia o National Institutes of Health, que banca a pesquisa básica, que é depois licenciada a preço camarada para a farmacêutica, que patenteia a molécula, que é comprada pelo Medicare a preço de ouro com o dinheiro do mesmo contribuinte que já pagou a pesquisa lá atrás. É pagar duas vezes pelo mesmo remédio, e ainda ouvir o executivo dizer, em conferência bancária, que o capitalismo salva vidas. Salva, sim, mas o arranjo que está descrito aí não é capitalismo coisa nenhuma, é corporativismo com nome bonito.

E as agências reguladoras, essas então merecem capítulo à parte. A FDA se transformou num filtro que decide quem entra e quem não entra no mercado bilionário da saúde, e quem tem exército de advogados e ex-funcionários da própria agência na folha de pagamento passa pela porta giratória com facilidade. Quem é pequeno, inovador e sem lobby morre na fila. O resultado é que o mercado farmacêutico tem cara de mercado, mas funciona como uma cartelização branda, com poucos jogadores grandes protegidos por uma parede regulatória que eles mesmos ajudaram a construir. A BridgeBio joga esse jogo porque é o único jogo em cartaz.

Me diz uma coisa, você acha que numa economia de verdade, com câmbio livre de moeda, com juros ditados pela poupança real e não por um comitê de burocratas em Washington, com pacientes decidindo com o próprio dinheiro o que comprar, esse tipo de conferência existiria nesse formato? Não existiria. Existiriam empresas competindo por preço, por eficácia, por serviço, num mercado onde a molécula ruim quebra e a boa prospera sem precisar do carimbo de uma agência federal. O que existe hoje é uma bolha regulatório-monetária inflada por décadas de dinheiro barato do Federal Reserve, que empurra capital para setores especulativos porque os juros negativos em termos reais tornam qualquer aposta melhor que a poupança.

Quando o próximo ciclo virar, e vai virar, muitas dessas biotechs de pipeline vão evaporar como orvalho no cerrado. Não porque a ciência era ruim, mas porque o modelo de negócio nunca foi ciência, foi arbitragem regulatória com dinheiro do Banco Central. O paciente que precisa do remédio continua esperando, e o gestor de fundo, esse já embolsou a taxa de administração e foi para a próxima conferência. O jaleco branco esconde muito bem o terno de Armani por baixo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.