A notícia chegou como chegam todas as notícias sobre Britney Spears: sem surpresa, sem escândalo genuíno, com aquela familiaridade triste de quem acompanha um naufrágio em câmera lenta desde 2007. A cantora foi internada numa clínica de reabilitação nos Estados Unidos para tratar problemas com substâncias. O site TMZ, que é basicamente o serviço de inteligência não-oficial da indústria do entretenimento, confirmou. Fontes próximas confirmaram. Todo mundo confirma, ninguém pergunta o que precisava ser perguntado há trinta anos. O espetáculo continua, o circo mudou de lona mas o palhaço é o mesmo.

Existe uma indústria inteira construída sobre o ciclo de fabricação e destruição de seres humanos. Pega-se uma criança com talento, coloca-se sob contrato antes que ela possa assinar seu próprio nome com consciência plena, treina-se o corpo e apaga-se o sujeito, vende-se a imagem ao mundo por décadas e, quando as rachaduras aparecem, convoca-se o aparato jurídico para administrar os destroços. No caso de Britney, o Estado, aquela entidade que se apresenta sempre como protetor e quase sempre atua como algoz, formalizou esse controle numa tutela legal que durou treze anos. O pai administrava o dinheiro, o pai administrava os contratos, o pai administrava a vida de uma mulher adulta como se administra uma fazenda. E o sistema judiciário americano, com toda sua pompa constitucional, chancelou isso sem pestanejar. A liberdade, nesse caso, foi o que sobrou depois que a estrutura toda foi sugada.

O vício em substâncias não nasce do nada, como não nasce do nada nenhuma consequência. Ele nasce de alguma coisa que doía antes, de alguma coisa que o ambiente não deixava nomear, de uma pressão que não tinha saída legítima. Quando um ser humano passa anos com a autonomia confiscada, quando cada decisão, cada centavo, cada relação pessoal passa pelo crivo de outro, o que se produz não é proteção, é uma psique que aprendeu que ela mesma não é confiável, que sua vontade é perigosa, que existir em liberdade é uma ameaça. E quando a tutela cai, o que fica não é a pessoa inteira, é o que sobrou. Internar numa clínica é o passo correto agora. Mas convém não fingir que "agora" caiu do céu.

A mídia vai cobrir a reabilitação com a mesma energia voyeurística com que cobriu o colapso, o careca, o guarda-chuva, a tutela e o movimento "Free Britney". Cada fase da deterioração de uma pessoa real foi transformada em produto de consumo. Cada sofrimento virou clique, cada instabilidade virou manchete rentável. A indústria do entretenimento tem essa característica peculiar: ela não precisa que seus ativos sejam saudáveis, ela precisa que sejam interessantes. E nada é mais interessante para o público ocidental moderno do que o declínio de alguém que já foi grande. Há nessa dinâmica uma crueldade que as antigas civilizações reconheceriam imediatamente, porque elas também tinham suas arenas, também tinham suas multidões pagando para ver alguém cair.

O dinheiro gerado por Britney Spears ao longo da vida é astronômico. Discos, turnês, perfumes, licenciamentos, contratos de publicidade, royalties, direitos de imagem. Esse dinheiro passou por muitas mãos, alimentou muitas estruturas corporativas, bancou muitos advogados, muitos agentes, muitos assessores, muitos executivos de gravadora. A pergunta sobre quem ficou com o quê é uma pergunta que ninguém na cobertura mainstream tem pressa de responder, porque a resposta é desconfortável e porque os donos da cobertura mainstream frequentemente têm interesses entrelaçados com os donos do produto que a cobertura consome. Siga o dinheiro e você sempre encontra alguém que preferia que você não seguisse.

Britney Spears tem 42 anos. Passou metade da vida adulta sob alguma forma de controle externo, seja da gravadora, seja do pai, seja do aparato legal. A reabilitação, se funcionar, vai devolver a ela algo que nunca deveria ter sido tomado: a posse de si mesma. O que o circo vai fazer sem esse número central é problema do circo. O que importa, do ponto de vista daquilo que ainda pode ser chamado de humanidade comum, é que exista uma saída real para além das manchetes. Mas apostas nesse desfecho sereno e silencioso, sem câmeras e sem TMZ, são, historicamente, ruins. O espetáculo prefere o próximo ato ao encerramento digno. Sempre preferiu.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.