Um sujeito que morreu aos trinta e dois anos, com o corpo talhado a soco e suor, deixou escrita uma sentença que hoje soaria quase criminosa nos gabinetes de assistência social: não peça uma vida fácil, peça força para suportar uma vida difícil. Repare na inversão. O homem comum, domesticado por décadas de propaganda do conforto subsidiado, reza pedindo que o copo seja menor; o sujeito que pensa por conta própria pede ombros maiores. A diferença entre essas duas orações é a diferença entre o cidadão livre e o pupilo perpétuo do Estado, aquele eterno adolescente que precisa de mesada, de licença e de carteirinha para existir.

O arranjo é antigo e funciona como relógio suíço. Vende-se ao público a ideia de que a vida deve ser plana, sem atrito, sem risco, sem esforço, e em troca dessa promessa terna o sujeito entrega, peça por peça, aquilo que o tornava gente: a iniciativa, a poupança, a coragem de errar por conta própria, o direito de quebrar a cara sem que venha um inspetor lhe explicar onde foi que ele errou. Cada programa novo de amparo é um músculo a menos no cidadão, e cada músculo a menos é um funcionário a mais com salário, pensão e poder de mando. Siga a trilha de qualquer benesse anunciada com voz embargada em rede nacional e você encontrará, no fim do labirinto, um orçamento inflado, um cargo comissionado e um eleitor agradecido por aquilo que lhe foi tirado do bolso na semana anterior.

A lógica é elementar e justamente por isso é evitada com tanto empenho. Se a virtude nasce do enfrentamento, e o Estado promete poupar o sujeito de todo enfrentamento, então o Estado é, por construção, uma fábrica de fraqueza. Não é maldade, é mecânica. Quem nunca carregou peso não desenvolve coluna; quem nunca passou aperto financeiro não aprende a calcular; quem nunca foi confrontado com a própria estupidez não corrige rota. O resultado dessa engenharia de algodão é uma população que treme diante de uma conta de luz mais alta e exige que alguém, qualquer alguém, de preferência com gravata e microfone, resolva o problema antes do almoço. E sempre haverá esse alguém, cobrando caro pelo serviço de transformar adultos em crianças grandes.

Há uma sabedoria antiga, anterior aos ministérios e aos programas de transferência, que entendia o sofrimento como ferramenta e não como anomalia a ser extirpada por decreto. Os povos que construíram civilizações duráveis não rezavam por estradas planas, rezavam por pernas firmes. Sabiam que o trigo precisa do moinho, que o ferro precisa da forja, que o caráter precisa do tropeço. Quando essa noção se perde, quando a dor passa a ser tratada como falha de gestão pública, surge essa coisa estranha que vemos hoje: gerações inteiras incapazes de tolerar uma frustração de terça-feira sem convocar terapeuta, advogado e parlamentar. O moinho foi proibido em nome da farinha barata, e ninguém percebeu que a farinha barata também sumiu no caminho.

O segredo daquela frase curta é que ela devolve ao indivíduo aquilo que nenhum gabinete pode entregar e nenhum imposto pode financiar: a responsabilidade pela própria têmpera. Pedir força em vez de facilidade é declarar, em silêncio, que a vida é sua, que o problema é seu, que a solução nasce dentro e não desce de cima. É a frase mais antiestatista já dita por um lutador, e talvez por isso ela continue circulando à margem dos discursos oficiais, repetida em academias e cozinhas, longe das tribunas onde se promete o paraíso pago com o dinheiro do vizinho. Quem reza por força incomoda; quem reza por mesada vota direitinho.

No fim das contas, a pergunta que importa é sempre a mesma e ninguém gosta de respondê-la em voz alta: se o sujeito for forte, quem perde o emprego? A resposta está escrita em cada orçamento público do planeta, em cada departamento criado para administrar a fragilidade alheia, em cada campanha que ensina o cidadão a se sentir vítima antes do café da manhã. O homem que reza por força é um cliente péssimo para essa indústria. Por isso a frase do lutador atravessa décadas sem perder o fio, e por isso ela continua sendo, no fundo, uma pequena heresia contra a religião oficial do nosso tempo, aquela que prega o conforto e cobra a alma como mensalidade.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.