Passava da meia-noite em Perdizes, 2006, e um dos maiores poetas que esta língua produziu no século vinte estava parado na calçada porque havia esquecido a chave. Soropositivo, debilitado, ele que tinha conquistado dois Jabutis e atravessado a Europa traduzindo o intraduzível, descobria naquela madrugada paulistana a verdade brutal de toda existência: chave esquecida não se compensa com prêmio literário. O corpo cobra. E o corpo daquele homem cobrava juros altos.
Faz sentido, no entanto, que tenha sido assim. Um país que sustenta com dinheiro público uma indústria editorial inteira de poetas chapa-branca, de romancistas premiados por comitês compostos pelos próprios premiados do ano anterior, de ensaístas que vivem de bolsa, edital e cargo comissionado em fundação cultural, esse país jamais saberia o que fazer com um sujeito de verdade. O talento autêntico é incômodo porque dispensa o balcão. Não pede, não bajula, não preenche formulário em três vias para a Lei Rouanet. E quem não pisa no balcão atrapalha a fila dos que vivem dele.
Olhe a engenharia do esquema. O contribuinte paga imposto, o imposto vira renúncia fiscal, a renúncia fiscal vira patrocínio de banco estatal, o patrocínio vira coquetel em livraria de shopping, e no coquetel se distribuem prêmios entre amigos que depois distribuem cátedras entre os mesmos amigos, que depois distribuem resenhas elogiosas nos suplementos culturais financiados pelo mesmo dinheiro que saiu do bolso do sujeito que nunca leu um verso na vida. É uma roda perfeita. Funciona faz décadas. E o produto final é exatamente o que se vê nas livrarias: prosa morna, verso requentado, ensaios sociológicos que confundem rancor com pensamento.
O poeta que esqueceu a chave em Perdizes pertencia a outra estirpe, aquela que aprende línguas para ler os antigos no original, que entende a métrica como um carpinteiro entende o esquadro, que sabe que rima pobre é vício de quem não estudou. Estirpe rara em qualquer época, escassa em qualquer país, e particularmente indigesta numa república onde a cultura virou repartição. Por isso morreu como morreu, lutando contra o vírus por fora e contra a indiferença organizada por dentro. A indiferença sempre foi mais letal, aliás. O vírus mata o corpo; a mediocridade institucional mata a obra antes mesmo do corpo.
Há uma lei silenciosa nessas terras: todo gênio incômodo será tolerado em vida apenas o suficiente para ser canonizado depois de morto, quando já não puder mais constranger ninguém com a presença. Vivos, são pedras no sapato dos burocratas da cultura. Mortos, viram tese de doutorado, nome de rua, selo dos correios. O cadáver é dócil, paga dividendos simbólicos, alimenta carreira acadêmica de muita gente que, em vida do biografado, fingia não saber pronunciar seu nome. É um arranjo lucrativo para todos, menos para o morto e para os leitores que perderam vinte anos de obra que jamais existirá.
A chave esquecida naquela madrugada é metáfora boa demais para se desperdiçar. Um homem que destrancou tantos idiomas, tantos séculos, tantos sonetos, ficou do lado de fora da própria porta porque a vida concreta não se rende ao verbo. Mas há outra leitura, mais cruel e mais verdadeira: ele estava do lado de fora porque a casa era a casa errada. A casa certa, a república das letras que ele merecia, nunca foi construída neste país. Continua sem ser construída. E enquanto durar a feira de vaidades sustentada por edital, continuará faltando chave para quem realmente teria o que escrever lá dentro.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.