Imagine a cena. Um senhor Gurung, corda de junco amarrada na cintura, balançando a duzentos metros de altura sobre um abismo himalaio, fumaça subindo para espantar abelhas do tamanho do polegar de um homem adulto, e na ponta do bastão um pedaço de favo escuro que vale, lá fora, mais por grama do que muita prata. Esse mel, produzido pela Apis laboriosa a partir do néctar de rododendros venenosos, carrega graianotoxinas que provocam alucinações, taquicardia e, em dose generosa, parada cardíaca. E é exatamente por isso que os ricos do hemisfério norte pagam até oitocentos dólares o quilo. Nada novo sob o sol: aquilo que mata em excesso e embriaga na medida certa sempre teve mercado, desde os vinhos resinados da antiguidade até o ópio que financiou impérios.

Aqui começa a parte que ninguém quer enxergar. Esse comércio funciona há séculos sem ministério, sem agência reguladora, sem selo de qualidade, sem CNPJ, sem nota fiscal eletrônica e sem reunião interministerial de fomento ao mel alucinógeno sustentável. Os caçadores aprendem com o pai, que aprendeu com o avô, que aprendeu com o bisavô. O preço se forma no encontro entre quem arrisca a vida na escada de bambu e quem quer experimentar o êxtase no apartamento de Berlim. Oferta e procura, contrato verbal, palavra dada. E, milagre dos milagres, ninguém precisou de uma comissão parlamentar para descobrir que mel demais mata.

Compare agora com a sua vida. Você precisa de licença para vender pão na esquina, alvará para cortar cabelo, certidão negativa para abrir uma quitanda, NR para colocar uma escada de dois metros no quintal e curso obrigatório para manusear uma furadeira no canteiro de obras. O nepalês escala um penhasco de trezentos metros enfrentando o maior insetinho voador do planeta, e o Estado dele, ocupado em coisas mais relevantes, deixa o homem trabalhar. Aqui, o mesmo Estado que não consegue iluminar uma rua publica portaria sobre o tamanho da letra no rótulo do leite condensado. Quem paga essa fiscalização toda? Você. Quem recebe? O fiscal, o cartório, o despachante, o sindicato corporativo que protege o concorrente já estabelecido contra o sujeito que quer entrar no mercado.

O argumento clássico para regular tudo é o de proteger o consumidor. Lindo na teoria, mentiroso na prática. O mel louco é literalmente venenoso, e ainda assim o turista europeu chega ao vilarejo, paga em dólar, prova uma colher, sente a cabeça girar e volta para casa vivo, porque o caçador que vendeu sabe perfeitamente a dose. Conhecimento tácito, transmitido de geração em geração, infinitamente superior a qualquer manual técnico produzido por funcionário público que nunca viu uma abelha de perto. A premissa maior é simples: quem tem pele em jogo aprende. A premissa menor é desconfortável: o burocrata não tem pele em jogo nenhuma. A conclusão, portanto, escreve-se sozinha.

E há um detalhe delicioso nessa história que escapa aos olhos distraídos. O tal mel só existe porque a colheita é difícil, perigosa, sazonal e geograficamente impossível de replicar em escala industrial. Tentaram domesticar a Apis laboriosa. Não dá. Ela quer o penhasco, o rododendro, a altitude, o frio. A escassez genuína, aquela que nasce da natureza das coisas e não de cartório, é o que sustenta o preço alto e remunera bem o caçador Gurung. Se amanhã algum gênio resolvesse subsidiar o setor, taxar a exportação para financiar um programa de inclusão produtiva e exigir certificação ISO do favo, em cinco anos não haveria mais caçador, não haveria mais mel e haveria, com certeza absoluta, três secretarias municipais cuidando do legado cultural da atividade extinta.

A lição que vem do Himalaia, portanto, não é sobre mel. É sobre a relação entre risco, recompensa e liberdade. Sobre o fato singelo de que mercados existem antes do Estado, sobrevivem ao Estado e funcionam melhor quando o Estado tira o pé. Sobre como o preço de uma coisa rara reflete o esforço real de quem a obtém, e não o desejo do planejador iluminado de transformar capricho em direito universal. Enquanto os Gurung sobem o penhasco e descem com o favo nas mãos, aqui o cidadão sobe a escada da repartição e desce com a guia de recolhimento. Os dois trabalham, os dois suam, mas só um dos dois leva o mel para casa.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.