Eis que um tal presidente e fundador de um instituto de ciência védica resolveu catalogar os doze signos do zodíaco conforme seus respectivos estilos de liderança. Aquariano é visionário, leonino é carismático, capricorniano é disciplinado, e por aí segue o desfile de banalidades cósmicas embrulhado em papel de presente acadêmico. A receita é antiga e infalível: pegue uma crença milenar, acrescente o sufixo institucional, cobre em dólar e venda como descoberta. Funciona desde que o primeiro xamã percebeu que tribo assustada paga melhor que tribo tranquila.
Pergunte quem paga e quem recebe, e a charada se desfaz em três segundos. Paga o gerente médio angustiado, a executiva insegura sobre a própria competência, o empreendedor que confunde leitura de planilha com leitura de mandala. Recebe o guru, recebe a editora que publica o livro, recebe a consultoria que vende workshop corporativo de quinze mil reais por cabeça para ensinar que touro é teimoso e gêmeos é comunicativo. É a mesma estrutura econômica do indulgenciador medieval, só que com slide em PowerPoint e certificado emoldurado na parede.
A lógica do truque é constrangedoramente simples. Se toda pessoa nascida entre vinte e três de julho e vinte e dois de agosto é naturalmente carismática e dominante, então metade dos leoninos do planeta, que trabalham como caixa de supermercado e motorista de aplicativo, está vivendo errado o próprio destino estelar. Ou a premissa é falsa, ou a realidade está enganada. Como a realidade tem o mau hábito de não pedir desculpas, sobra a premissa, que era falsa desde o início. Mas admitir isso quebraria o modelo de negócio, e ninguém quebra o próprio modelo de negócio voluntariamente.
O charme da coisa está no descompromisso. Horóscopo é o único produto do mercado que não responde por defeito. Se acertar, virou profecia; se errar, foi má interpretação do leitor. Compare com qualquer outra mercadoria: imagine comprar um carro que, ao não funcionar, é culpa sua por não ter compreendido a essência veicular. Pois é exatamente assim que opera a indústria do esoterismo gerencial, e ainda por cima com isenção fiscal de instituto cultural. O Estado, sempre solícito, classifica o vidente como difusor de saberes ancestrais e lhe poupa o imposto que cobra do padeiro.
Há ainda o componente sociológico mais sombrio. Quando uma sociedade troca a leitura de balanço pela leitura de mapa astral para escolher seus líderes, ela não está sendo espiritual; está abdicando do esforço de pensar. É mais cômodo atribuir a competência a um alinhamento planetário do que ao trabalho duro de aprender, errar e corrigir. O sujeito que fracassa por preguiça intelectual prefere mil vezes descobrir que é vítima do retrógrado de mercúrio. O guru indiano entendeu o filão e, sejamos justos, está apenas atendendo uma demanda autêntica de gente que prefere pagar para ser enganada do que pagar para ser educada.
No fim, a pergunta que importa permanece intacta. Quem paga é o crédulo ansioso, quem recebe é o vendedor de certezas baratas, e quem aplaude é a imprensa que confunde matéria paga com jornalismo. O resto é fumaça de incenso. Se signo determinasse liderança, estaríamos elegendo presidentes pela data de nascimento, e talvez já estejamos, o que seria a explicação mais econômica para o estado das coisas.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.