Ronaldo Caiado olhou para as câmeras e disse que não há divisão no PSD. Eduardo Leite, do outro lado, insinuou o contrário. O espetáculo é velho como a própria política partidária brasileira: dois homens disputam o espólio de uma sigla e ambos juram que a casa está em ordem. Um mente por ambição, o outro por cálculo. Talvez os dois mintam pelos dois motivos ao mesmo tempo. O que nenhum dos dois vai confessar é a pergunta que realmente importa: quem está bancando cada facção e o que foi prometido em troca do apoio?
Partidos políticos no Brasil não são agremiações de ideias, são consórcios de acesso ao orçamento. O PSD, criado por Gilberto Kassab em 2011 com a sutileza de quem monta uma holding, jamais teve qualquer substância programática que sobrevivesse a uma análise de cinco minutos. É uma máquina de distribuir cargos, emendas e contratos. Quando Caiado diz que não há divisão, o que ele quer dizer é que sua fatia do bolo ainda está garantida. Quando Leite sugere o contrário, o que ele quer dizer é que pretende renegociar as fatias. Nenhum dos dois está minimamente preocupado com o eleitor, com princípios ou com o país. Estão preocupados com a aritmética do poder, que no fundo é sempre uma aritmética de dinheiro público.
Observe a mecânica. Caiado saiu do governo de Goiás e precisa de uma plataforma nacional. O PSD tem fundo partidário, tempo de televisão, capilaridade em prefeituras. Controlar a sigla é controlar um caixa bilionário alimentado pelo contribuinte que não pediu para financiar nenhuma dessas ambições pessoais. Cada centavo do fundo eleitoral foi arrancado do bolso de alguém que acordou cedo para trabalhar e não faz a menor ideia de que seu suor paga o palanque de políticos que ele talvez sequer conheça. Quando dois caciques brigam pela presidência de um partido, não estão brigando por visões de Brasil. Estão brigando pela chave do cofre.
A história se repete com a monotonia de um relógio quebrado que ainda acerta duas vezes por dia. O PMDB viveu décadas nesse ciclo de "unidade" publicamente proclamada enquanto os corredores ferviam de conspirações internas. O PP, o PTB, o antigo PFL, todos passaram pelo mesmo roteiro. A razão é simples: partidos sem convicção só se mantêm coesos enquanto há butim suficiente para todos. No momento em que alguém calcula que pode levar mais, a fissura aparece. Caiado e Leite são personagens intercambiáveis numa peça que se encena desde que o primeiro político descobriu que é mais fácil viver do imposto alheio do que produzir qualquer coisa de valor.
O mais revelador nessa disputa é o que não se discute. Ninguém pergunta qual é a proposta de Caiado para reduzir o tamanho do Estado, para devolver dinheiro ao pagador de impostos, para desmontar a máquina que alimenta exatamente esse tipo de briga intestina. Ninguém pergunta porque a resposta é nenhuma. A pré-candidatura de Caiado, como a de qualquer outro nome que saia desse liquidificador partidário, é um projeto de gestão do aparato estatal, nunca de redução dele. O eleitor é convidado a escolher qual grupo de pessoas vai administrar o confisco, nunca se o confisco deveria existir. E enquanto essa pergunta fundamental continuar proibida, vamos assistir a Caiados e Leites se digladiando pelo direito de nos governar, jurando que estão unidos, rachando por dentro, e mandando a conta para quem sempre paga: você.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.