A Caixa começou a pagar nesta semana a parcela aos beneficiários com NIS final 5, e o número que acompanha a notícia merece ser repetido em voz alta, sem o anestésico das manchetes: doze bilhões e novecentos milhões de reais, num único mês, para dezenove milhões e oitenta mil famílias. Não é programa social, é folha de pagamento de um eleitorado cativo, distribuída com a pontualidade que nenhum salário do setor privado consegue ter, porque o setor privado, coitado, depende de produzir alguma coisa antes de pagar.
Vale a pena fazer a conta que o governo nunca faz na propaganda. Cada família recebe, em média, pouco mais de seiscentos reais, e para que esses seiscentos reais cheguem à conta, alguém precisou trabalhar, faturar, declarar e ser triturado pela máquina tributária. O caminhoneiro que paga ICMS embutido no diesel, a dona de casa que paga PIS e Cofins no pão, o pequeno comerciante que sangra para fechar o mês com o Simples, todos eles são os verdadeiros financiadores deste festival de generosidade alheia. O político corta a fita, sorri para a câmera e entrega o que não é dele, com dinheiro que não ganhou, para colher um voto que custa caro a quem trabalha.
A engenharia é antiga, tão antiga quanto Roma distribuindo trigo na Ânona para manter a plebe quieta enquanto o Senado roubava as províncias. Pão e circo nunca foi metáfora, foi manual de operação. O imperador descobriu que cidadão de barriga cheia e olho grudado na arena não pergunta para onde vai o tributo do Egito, e o sucessor moderno aprendeu a lição com requintes de marketing: troca o trigo pelo PIX, a arena pelo streaming, e mantém o mesmo arranjo de dominação. Mude o figurino, a peça é a mesma.
Há quem responda, com aquela voz mansa de quem nunca abriu uma planilha, que se trata de combate à miséria. Examine a premissa antes de aceitar a conclusão. Se transferência de renda erradicasse pobreza, vinte e poucos anos de programa contínuo, somando algo perto de um trilhão de reais em valores corrigidos, teriam transformado o Brasil numa Suíça tropical. Não transformaram. Multiplicaram a dependência, anestesiaram a busca por trabalho formal em regiões inteiras, e criaram um curral eleitoral que nenhum governo, de qualquer matiz, tem coragem de desmontar, porque desmontar é perder o poder no domingo seguinte. O programa não combate a pobreza, administra a pobreza, e administrar é coisa muito diferente de resolver.
O detalhe mais cínico de toda a operação é o vocabulário. Chamam de benefício o que é confisco redistribuído, chamam de auxílio o que é hipoteca futura paga pelos filhos via inflação e dívida pública, chamam de cidadania o que é clientelismo digitalizado. A palavra benefício pressupõe um benfeitor, e o governo, repita comigo devagar, não tem um centavo que não tenha sido tirado de alguém antes. Toda esmola pública é antes um roubo privado, e quem agradece está agradecendo o ladrão pelo troco que devolveu.
Então quando a Caixa abrir a janela amanhã para o próximo final de NIS, faça o exercício honesto que o telejornal não fará: pergunte quem paga, pergunte quem recebe, e pergunte, sobretudo, quem fica no meio do caminho cobrando pedágio em forma de voto, cargo e estrutura partidária. A resposta dói, mas é a única que liberta. Doze bilhões num mês não caem do céu, sobem do seu bolso.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.