Existe um peixinho de água doce, chamado molinésia-amazona, que há aproximadamente cem mil anos resolveu o problema da reprodução sem precisar de macho, sem precisar de comitê, sem precisar de plano plurianual. Toda a prole é fêmea, herda exclusivamente o DNA materno, e mesmo assim a espécie precisa do ato sexual com machos de espécies aparentadas apenas como gatilho mecânico, descartando depois a carga genética alheia. Em linguagem clara: ela usa o sujeito, agradece e segue a vida. Cem mil anos de funcionamento ininterrupto, sem assembleia, sem programa social, sem campanha publicitária financiada por dinheiro alheio.

O detalhe delicioso é o contraste. Enquanto uma poça d’água no meio da floresta resolveu, por conta própria, um arranjo reprodutivo estável e duradouro, o bicho humano que se autoproclama o ápice da evolução não consegue distribuir uma cesta básica sem criar três secretarias, dois conselhos consultivos e um observatório de gênero com orçamento na casa dos milhões. A molinésia não pediu autorização ao Ibama, não submeteu projeto à Capes, não esperou parecer da ONU. Apenas existiu. E persistiu. Quem paga essa eficiência? Ninguém. Quem recebe? Ela mesma, na forma de continuidade da espécie. Eis o milagre da ordem espontânea que tanto incomoda os engenheiros sociais de plantão.

Os apaixonados por planejamento central deveriam meditar diante desse aquário. A natureza, esse fenômeno chato que insiste em não obedecer aos manifestos da moda, produz por tentativa e erro arranjos que duram eras geológicas, ao passo que o último plano quinquenal lançado com fanfarra e capa colorida dura, em média, até a próxima troca de ministro. Cem mil anos de partenogênese contra cem dias de governo: a comparação por si já é uma piada cruel. E a piada fica mais ácida quando se lembra que cada nova teoria sobre como reorganizar a vida em sociedade vem acompanhada de boletos compulsórios pagos por quem não foi consultado.

Há ainda uma lição sobre o pudor científico. Descobrir uma espécie que prescinde do macho não virou bandeira ideológica, ao menos por enquanto, porque biólogo sério sabe que peixe não vota, não milita e não comparece a audiência pública. A molinésia faz porque faz; não precisa de narrativa, não exige reconhecimento, não cobra reparação histórica do oceano. Quem trabalha em silêncio costuma produzir resultados; quem grita em microfone costuma produzir apenas microfones, comissões e a próxima rubrica orçamentária para sustentar a próxima rodada de gritaria.

O que esse peixinho ensina, no fundo, é que a vida resolve seus problemas quando a deixam em paz. Cem mil anos de sucesso reprodutivo sem um único decreto, sem um único imposto, sem um único burocrata de pasta engomada explicando a um aquário como ele deve se organizar. Talvez seja por isso que o tema dificilmente vire manchete nobre: confessar que algo funciona sozinho seria admitir que boa parte da nossa estrutura administrativa é supérflua, cara e, sobretudo, dispensável. E essa, convenhamos, é uma verdade que custa caro para quem vive justamente de empurrar a mentira contrária goela abaixo.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.