O camarão-gigante-da-malásia, que ninguém pediu para morar aqui, hoje passeia tranquilo pelos estuários do litoral brasileiro, devora a fauna nativa, ocupa manguezais inteiros e já frequenta áreas marinhas que o próprio governo, com aquele entusiasmo de papel timbrado, jurou ter colocado sob proteção. A pergunta óbvia, aquela que o boletim oficial nunca faz, é simples como uma conta de padaria: como esse bicho chegou aqui? Resposta: de avião, com carimbo, com selo verde de fomento, com financiamento subsidiado, com licença ambiental e, claro, com cerimônia de inauguração. Foi a aquicultura tutelada, abençoada e empurrada pelo poder público, ávido por gerar números bonitos de exportação e fotografias de ministro abraçando produtor.

Repare na coreografia. Primeiro o Estado decide, sem perguntar a ninguém, que aquele canto de litoral precisa de uma nova matriz produtiva. Em seguida, libera dinheiro barato, isenção, crédito rural, programa de incentivo com nome pomposo. Os tanques se enchem do bicho exótico, alguns produtores ficam ricos, outros quebram, a planilha do banco oficial fecha no azul por dois anos e ninguém fala mais no assunto. Vinte anos depois, o camarão, que nunca leu o contrato de aquicultura nem se comprometeu a permanecer no tanque, escapou. Está no mangue. Está no estuário. Está jantando os caranguejos que sustentam famílias inteiras desde antes da chegada da caravela.

É a velha lógica do incêndio premeditado. Quem botou fogo na mata exige agora uma corporação de bombeiros com salário, viatura e adicional de periculosidade. A mesma burocracia que assinou a portaria de importação vai assinar agora a portaria de combate à invasão. Vai criar um grupo de trabalho, um comitê interministerial, uma força tarefa, um plano nacional, um observatório, um instituto, uma secretaria adjunta de manejo de espécies exóticas invasoras. Cada sigla nova é uma folha de pagamento nova, cada folha de pagamento nova é um imposto a mais cobrado do pescador artesanal que, ironicamente, é a única vítima real desse circo.

O silogismo aqui é tão grosseiro que ofende a inteligência de quem o monta. Se uma espécie causa dano ecológico irreversível, e se foi o poder público que a introduziu deliberadamente mediante fomento, então o poder público causou dano ecológico irreversível. Mas observe o truque retórico: o relatório técnico vai falar em fatores complexos, mudanças climáticas, pressão antrópica, manejo inadequado por parte de produtores isolados. Tudo, absolutamente tudo, menos o sujeito da frase. O Estado nunca é sujeito. O Estado é sempre solução, jamais causa. As palavras foram torcidas até pedirem clemência.

E o pescador, esse senhor de pele queimada que conhece cada raiz de mangue pelo nome, foi consultado em algum momento dessa engenharia toda? Não. Ele é o pagador silencioso, o proprietário expropriado por procuração. A propriedade dele sobre aquele território de pesca, construída ao longo de gerações pelo uso pacífico e produtivo, foi varrida por uma canetada em Brasília que decidiu, sem ouvi-lo, que ali agora seria distrito industrial aquícola. Quando o experimento desandou, ele perdeu a fonte de renda. Quando o governo decretar a operação de salvamento do mangue, ele pagará o imposto extra. E quando a secretaria nova for inaugurada com discurso emocionado, será o nome dele invocado como justificativa, embora ele jamais seja convidado para o coquetel.

Resta a piada final, sempre a mesma. Cada desastre fabricado pelo planejamento central vira pretexto para mais planejamento central. O bicho saiu do tanque porque o tanque foi mal concebido por quem nunca pisou num mangue, e a solução proposta é entregar o mangue inteiro a esses mesmos sujeitos. Quem paga é o pescador, o consumidor, o contribuinte. Quem recebe é o gestor público, o consultor credenciado, o pesquisador alinhado, o empresário amigo do despacho. O camarão, coitado, é só o personagem secundário de uma novela escrita em papel almaço carimbado.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.