Uma câmera escondida numa trilha registrou a cena que a propaganda oficial insiste em esconder do contribuinte. A lontra desce, mergulha, usa a água fria a seu favor, se apoia num tronco, calcula a refração da luz e volta à superfície com o peixe atravessado na boca. Fim de expediente. Nenhuma autorização prévia, nenhum estudo de impacto, nenhum relatório técnico de sessenta páginas assinado por três biólogos concursados. O bicho simplesmente trabalha, e trabalha bem, exatamente como vem fazendo há alguns milhões de anos antes de existir Brasília.

A manchete vende a cena como novidade científica, quando na verdade é a mais antiga das demonstrações: o rio se equilibra sozinho quando ninguém resolve equilibrá-lo no tapetão. A lontra controla a população de peixes, os peixes controlam os insetos, os insetos controlam a vegetação, e assim a engrenagem gira sem que um único funcionário público precise bater ponto. Repare na elegância do arranjo. Cada animal cuida do próprio interesse, da própria barriga, da própria cria, e o resultado agregado é justamente aquela harmonia que os discursos solenes juram só existir sob tutela estatal. O rio já era livre antes de inventarem a palavra liberdade, e produtivo antes de inventarem a palavra produtividade.

Convém então perguntar quem lucra com a tese contrária, aquela que transforma cada tronco caído num problema regulatório. Existe toda uma fauna bem alimentada que vive de vender a ideia de que a natureza está sempre à beira do colapso e que só um novo imposto, uma nova secretaria, um novo fundo multilateral, uma nova taxa verde impede o apocalipse. É a velha indústria do medo travestida de ambientalismo. Quanto mais urgente a ameaça, mais generoso o orçamento, mais numeroso o quadro de assessores, mais luxuoso o congresso internacional em hotel cinco estrelas com água de coco servida em copo biodegradável. A lontra caça peixe de graça. O burocrata que pretende caçar no lugar dela cobra caro, pede diária, viagem, carro oficial e pensão vitalícia.

Há um detalhe cômico nisso tudo. O mesmo aparato que não consegue impedir uma mineradora amiga de rebentar uma barragem, que não consegue punir a dragagem clandestina financiada por político da base, que coloca fogo em dossiê e arquiva denúncia na gaveta, esse mesmo aparato se arvora em guardião do equilíbrio ecológico quando o assunto é multar o pequeno produtor que construiu um açude no fundo do sítio. A régua é elástica conforme a conveniência do caixa. A lontra, bichinho apolítico, escapou por enquanto da cobrança, mas não se engane: se conseguirem um jeito de tributar a pescaria dela, tributam. Falta apenas criar a guia de recolhimento.

O vídeo, portanto, não é uma curiosidade de domingo. É um documento subversivo. Mostra, sem comentarista nem legenda partidária, que a ordem espontânea funciona, que a cooperação não precisa de decreto, que o trabalho produz resultado quando ninguém coloca formulário no meio do caminho. A lontra é mais honesta que o Palácio do Planalto porque ela come o peixe que pega. Não terceiriza a pescaria para um sobrinho, não cria uma fundação para arrecadar doação internacional, não transforma o próprio reflexo no rio em programa de governo. Pega, come, dorme, acorda e volta a pescar. Simples assim. Se um dia inventarem de cobrar outorga de uso da água para a lontra, será o dia em que teremos provado, de uma vez por todas, que o absurdo administrativo não conhece fronteira entre espécies.

No fim, a pergunta que importa é sempre a mesma. Quem paga pela fantasia de que a natureza precisa de tutor de gravata? O contribuinte, claro, esse mesmo que nunca pisou na trilha e nunca viu a lontra ao vivo. E quem recebe? O de sempre, a rede bem azeitada de repartições, verbas, consultorias, assessorias e cadeiras de diretoria. A lontra, coitada, segue na ignorância feliz de que alguém em algum gabinete distante está escrevendo em nome dela um relatório que ela não pediu, não leu e não precisa. Prosperou sem o Estado e prospera apesar dele. Devia dar aula de economia política, se não estivesse ocupada jantando.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.