Um tubarão-gato foi flagrado por câmeras subaquáticas descansando calmamente num banco de areia na costa da Cornualha, Inglaterra. O bicho, que não passa de um metro e meio e se alimenta de crustáceos e moluscos, estava ali fazendo aquilo que qualquer ser vivo faz quando não é incomodado: existindo em paz. O vídeo, captado por mergulhadores, viralizou pela simplicidade quase cômica da cena. Um predador marinho, deitado como um gato doméstico no sofá, sem a menor cerimônia. A natureza, quando o homem não se mete, funciona com uma elegância que nenhum planejador central jamais conseguirá imitar.

Mas o que deveria ser apenas uma curiosidade zoológica já vem embalado no discurso de praxe: o tubarão-gato e "seu papel no equilíbrio marinho do Atlântico Nordeste". Repare na linguagem. Não se trata de mostrar um animal interessante ao público. Trata-se de justificar. Cada criatura que aparece numa lente precisa imediatamente ser convertida em argumento para a preservação estatal, para o fundo ambiental, para a convenção internacional, para o tratado com sigla impronunciável. O tubarão não descansa; ele "desempenha um papel". O banco de areia não é um banco de areia; é um "ecossistema sob pressão". E onde há pressão, há necessidade de verba. Sempre.

Siga o fio e encontre o novelo de sempre. Programas de monitoramento marinho custam milhões de libras por ano ao contribuinte britânico. Equipamentos, bolsas de pesquisa, conferências em hotéis cinco estrelas onde cientistas apresentam slides sobre peixes enquanto consomem lagosta no jantar. ONGs ambientais que existem exclusivamente para captar recursos públicos, cujos relatórios anuais são um prodígio de autorreferência: o dinheiro recebido no ano anterior justifica o pedido de mais dinheiro no ano seguinte. O tubarão-gato, coitado, não sabe que sua soneca virou commodity burocrática. Se soubesse, provavelmente preferiria nadar para águas mais profundas, longe do alcance de qualquer edital.

O mais revelador é o contraste. O tubarão não precisa de ninguém para manter o "equilíbrio marinho". Ele faz isso comendo, dormindo e se reproduzindo, como seus ancestrais fizeram por quatrocentos milhões de anos, período durante o qual não existiam ministérios do meio ambiente, cotas de emissão de carbono nem conferências climáticas em cidades suíças. O ecossistema marinho sobreviveu a cinco extinções em massa sem o auxílio de um único burocrata. Mas o burocrata moderno, esse sim precisa desesperadamente do ecossistema, porque sem ele perde a razão de existir, perde o orçamento, perde o carro oficial. Quem depende de quem, afinal? O oceano não precisa do Estado. O Estado é que precisa do oceano como álibi.

A coisa fica ainda mais interessante quando se observa quem produz esses vídeos e para quem. Mergulhadores autônomos, entusiastas, gente que gasta seu próprio dinheiro com equipamento e combustível, filmam cenas genuínas da vida marinha. O material é publicado, viraliza, gera interesse real do público. E então chega o aparato institucional para se apropriar do fenômeno: "Vejam como é importante financiar nosso programa de conservação." É a velha história do sujeito que aparece depois que a casa já está construída para cobrar o imposto sobre a construção. O valor foi criado pela iniciativa privada, pela curiosidade individual, pelo investimento voluntário. O parasita institucional apenas captura a renda. O tubarão-gato, na sua placidez soberana, é a prova viva de que a ordem natural não precisa de planejadores. Ele descansa porque pode. O contribuinte, esse não tem o mesmo luxo.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.