O anúncio chegou com a solenidade de quem descobriu o fogo: o governo Lula vai entrar em 2026 prometendo isenção de imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais, o fim da escala de trabalho 6x1 e tarifas zeradas em produtos importados. Três bandeiras. Três promessas. E, se você parar um segundo para pensar em cada uma delas com a frieza de quem sabe aritmética básica, três formas distintas de enganar o mesmo eleitor com o mesmo dinheiro que já foi tirado do bolso dele antes.

Comece pelo IR. A isenção para quem ganha até cinco mil reais soa generosa até você perguntar quem paga a conta. O Estado não produz nada. Cada real que ele distribui foi, antes, extraído de alguém. Quando o governo decide que determinada faixa não pagará mais imposto de renda, ele não criou riqueza nenhuma: apenas realocou o ônus tributário para outro ponto da cadeia, comprimiu a base de contribuintes ou simplesmente empurrou o rombo para a dívida pública, que é o mecanismo favorito dos que querem parecer generosos sem ter que explicar o custo. É a velha ilusão do presente embrulhado com papel do vizinho. O eleitor agradece o laço sem saber que o embrulho é dele.

A escala 6x1 é o segundo ato da peça. Aqui o governo entra no território das relações privadas entre trabalhadores e empregadores para dizer como o tempo deve ser dividido, como se a jornada de trabalho fosse um problema de geometria que só o Estado sabe resolver. Ninguém nega que trabalhar seis dias seguidos é exaustivo. O que se nega é que a solução seja uma canetada federal que ignora setores, regiões, tipos de contrato e, acima de tudo, a vontade das partes envolvidas. O que parece proteção ao trabalhador frequentemente termina como desincentivo à contratação ou como pressão inflacionária sobre os custos do serviço, que o próprio trabalhador paga como consumidor. A bondade regulatória raramente confessa seus custos ocultos.

As tarifas zero nas importações são o mais intelectualmente desonesto dos três. O Brasil carrega há décadas uma estrutura protecionista que encarece produtos básicos para o consumidor brasileiro e protege, na prática, produtores organizados com acesso privilegiado ao poder. Reduzir tarifas seria, em abstrato, uma medida de bom senso econômico. O problema é que essa proposta vem do mesmo governo que, nos últimos três anos, expandiu o Estado, elevou carga tributária, apostou no crédito subsidiado como motor do consumo e resistiu a qualquer ajuste fiscal sério. Usar a abertura comercial como bandeira eleitoral, sem reformar o resto da arquitetura de extorsão tributária que encarece a produção doméstica, é como vender janela nova para uma casa com a estrutura apodrecida. O vento entra diferente, mas o teto ainda cai.

O que une os três eixos da campanha petista não é a coerência econômica, mas a coerência eleitoral. Cada promessa fala a um segmento: a classe média assalariada, o trabalhador urbano exaurido, o consumidor esmagado pelo custo de vida. O PT compreende muito bem que a política não é sobre resolver problemas, é sobre nomear inimigos e aparecer como redentor. O inimigo, desta vez, tem nome e data: a gestão anterior. O manual é conhecido, foi usado em 2002, em 2006 e agora, com ligeiros ajustes de roteiro, reaparece para 2026. O espetáculo de contrastes substitui o diagnóstico real porque o diagnóstico real implicaria perguntas inconvenientes sobre os últimos trinta meses.

Há uma distinção que os romanos faziam com precisão brutal: entre o estadista que governa pensando nas próximas gerações e o político que governa pensando na próxima eleição. As três bandeiras do PT têm prazo de validade claro: 5 de outubro de 2026. O que acontece com o rombo do IR isento, com os empregos afetados pelo redesenho forçado das jornadas e com a indústria pressionada por importações mais baratas, isso é problema de 2027. E em 2027, garanto, haverá outra crise, outro inimigo, outra bandeira. O ciclo não quebra porque não foi feito para quebrar.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.