Comecemos pelo fato cru, sem o verniz das agências de notícias. O Estado canadense, esse mesmo que congelou contas bancárias de caminhoneiros há poucos invernos, agora se apresenta sorridente, oferecendo ao súdito uma moedinha colorida com bola de futebol estampada. Três milhões de unidades, valor de face de um dólar, circulação oficial durante o torneio. A imprensa repete o comunicado como se fosse poesia. Ninguém pergunta o óbvio: quem paga a festa e quem fica com o troco.

A resposta, como sempre, mora na contabilidade que ninguém quer ler. Cunhar uma moeda comemorativa custa centavos. Vendê-la, ou impô-la, pelo valor nominal de um dólar gera o que o vocabulário técnico chama, com pudor de freira, de senhoriagem. É a diferença entre o custo de produção e o valor de troca, e essa diferença vai inteirinha para o caixa do governo. Multiplique pelos três milhões, some o efeito colecionismo que tira a moeda de circulação e a transforma em lucro líquido, e teremos um pequeno imposto disfarçado de homenagem desportiva. Confisco vestido de festa.

Há ainda o segundo andar do golpe, mais sutil e mais elegante. Toda vez que o Tesouro associa o rosto do poder a um evento popular, ele compra, com dinheiro alheio, uma legitimidade que não conseguiria nas urnas. É a velha técnica do imperador romano que cunhava sestércios com a própria efígie ao lado de cenas de jogos no Coliseu. Pão, circo e numismática. O cidadão recebe a moeda, sente um carinho patriótico, e esquece que aquele mesmo Estado lhe toma metade do salário antes que ele toque no contracheque. A bola estampada no metal é o beijo de Judas em forma de troco.

Observe a lógica nua, sem o tapete vermelho da retórica oficial. Premissa: o governo emite, controla e impõe a moeda. Premissa menor: o governo lucra com cada unidade emitida acima do custo. Conclusão inevitável: toda moeda comemorativa é, antes de comemoração, arrecadação. Não existe almoço grátis no balcão do Banco Central canadense, e não existe homenagem desinteressada quando quem homenageia tem o monopólio da impressora. O futebol é o pretexto, a margem de lucro é a finalidade, o resto é decoração.

E quem recebe, afinal? Recebem os burocratas da Casa da Moeda, que justificam orçamento e empregos com o projeto. Recebem os marqueteiros oficiais, que faturam contratos de divulgação. Recebe a FIFA, que cobra do país anfitrião royalties astronômicos e ainda exige isenções fiscais que fariam corar um banqueiro de paraíso fiscal. Recebe o político de plantão, que aparecerá na cerimônia segurando a moedinha como se tivesse descoberto a penicilina. Paga, claro, o canadense comum, aquele que vai trabalhar oito horas para depois descobrir, ao chegar em casa, que sua poupança vale menos por causa de uma inflação que ninguém votou.

Que se guarde a moeda como relíquia, então, mas com a etiqueta correta. Ela não comemora futebol; comemora a engenhosidade do poder em transformar qualquer pretexto em receita. Daqui a vinte anos, quando o colecionador abrir a gavetinha forrada de veludo e mostrar a peça aos netos, deveria contar a história completa: aqui está, meu filho, o pequeno disco de metal que provou, mais uma vez, que governo nenhum perde a chance de cobrar entrada num espetáculo que ele próprio inventou.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.