Abelardo de la Espriella sobe nas pesquisas presidenciais da Colômbia oferecendo aos eleitores uma mercadoria que andava em falta no balcão da política latino americana, a saber, a promessa de que assassino preso não assassina de novo. A platéia, formada por gente que enterra parente toda semana, achou a oferta razoável. Os analistas de bom gosto, aqueles que escrevem colunas climatizadas em Bogotá e Medellín, torcem o nariz e cunham o apelido de praxe, Bukele colombiano, como se comparar um candidato ao presidente que esvaziou as ruas de El Salvador fosse xingamento. Para a viúva, é elogio. Para o sociólogo subsidiado, é ameaça existencial.
Vale a pergunta que ninguém quer fazer em mesa de jantar diplomática, quem ganhou dinheiro com a Colômbia transformada em matadouro a céu aberto durante quatro décadas. Ganhou a indústria do diagnóstico, aquela tropa de consultores, ONGs, observatórios, institutos de paz e programas de reinserção financiados a dólar de cooperação internacional, cada um vivendo confortavelmente da existência do problema que jura combater. Ganhou o cartel, óbvio, mas o cartel é o sócio escandaloso, o sócio decoroso é o burocrata que recebe salário para administrar a desgraça em planilha colorida. Resolver de verdade quebra o modelo de negócio. Por isso o pânico quando aparece um candidato que ameaça encerrar a consultoria.
O silogismo é tão tosco que ofende a inteligência de quem o nega. Se o monopólio legítimo da força existe para alguma coisa, existe para impedir que um cidadão seja degolado na esquina de casa. Se o Estado cobra imposto sob a justificativa de prover segurança e não provê, está cometendo o que em qualquer relação privada se chamaria estelionato. Logo, ou o Estado cumpre a única função que serviu de pretexto para sua existência, ou devolve o dinheiro. Como devolver é impensável, restaria cumprir. Décadas de garantismo seletivo, aquele que protege o bandido e desarma a vítima, provaram que o sistema preferiu uma terceira via, a saber, ficar com o dinheiro e terceirizar a degola.
O detalhe saboroso é o vocabulário com que a imprensa internacional embrulha o fenômeno. Quando o candidato promete construir presídio, é populismo. Quando promete construir ministério da diversidade, é maturidade institucional. Quando fala em pena dura para estuprador, é autoritarismo. Quando fala em programa de mediação simbólica para o mesmo estuprador, é progresso civilizatório. A régua é torta de fábrica e mede sempre no sentido de favorecer quem vive do orçamento e desfavorecer quem paga o orçamento. O eleitor colombiano, esse animal teimoso, descobriu o truque e está prestes a aplicar o corretivo na urna.
Há ainda o fantasma de Pablo Escobar pairando sobre a discussão, lembrete incômodo de que a Colômbia já experimentou o que acontece quando o Estado abdica do território e entrega o monopólio da violência ao mais ousado da praça. Pagou caro, em sangue de juízes, jornalistas e adolescentes de periferia, para reaprender a lição elementar, que a ordem não é luxo de país rico, é pré requisito de qualquer civilização que se pretenda. O que se vende agora como novidade autoritária é, na verdade, o regresso a um patamar mínimo de seriedade que a esquerda caviar batizou de retrocesso para poder continuar cobrando consultoria.
No fim, a eleição de domingo é menos sobre um advogado de cabelo penteado para trás e mais sobre um veredicto popular contra a indústria do problema. Se Espriella vencer, não será porque o povo virou fascista da noite para o dia, conforme decretará o editorial padrão. Será porque o povo cansou de pagar duas vezes pela mesma desgraça, uma em imposto, outra em enterro. Quem paga continua sendo o sujeito que acorda às cinco da manhã. Quem recebe, até agora, era o sujeito que escreve relatório sobre ele. A inversão dessa equação é o que chamam, com a voz embargada de espanto, de ameaça à democracia.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.