Um homem esfaqueou um funcionário de estacionamento em San Diego. Até aqui, tragédia comum numa cidade americana onde o contribuinte despeja fortunas em segurança pública e recebe em troca ruas onde um sujeito armado com faca consegue atacar à vontade. O que veio depois é que merece atenção: cercado por policiais, o suspeito desobedeceu ordens e resistiu a armas não letais. A solução do aparato mais caro do planeta foi soltar um cachorro. O vídeo viralizou, as pessoas aplaudiram, e ninguém fez a pergunta que importa: quanto custou treinar esse animal para fazer o que uma dúzia de agentes armados, pagos com dinheiro confiscado do cidadão, não conseguiu?

O programa K-9 nos Estados Unidos é uma indústria silenciosa. Um único cão policial custa entre 15 e 45 mil dólares para adquirir e treinar, sem contar alimentação veterinária especializada, equipamento, veículo adaptado e o salário do handler dedicado exclusivamente ao bicho. Multiplique isso pelas centenas de unidades espalhadas pelo país e você tem um orçamento que faria corar qualquer empresa privada de segurança, que aliás resolveria o mesmo problema por uma fração do preço, se o Estado permitisse concorrência no setor. Mas não permite. O monopólio da força exige que só ele decida como, quando e com qual criatura a violência será aplicada. O cachorro não é ferramenta de eficiência; é símbolo de jurisdição.

Observe a mecânica do espetáculo. O suspeito estava cercado, o perímetro fechado, as armas não letais já tinham sido empregadas. Em qualquer cálculo racional, a situação estava contida. Mas o Estado não opera por cálculo racional; opera por demonstração de força. Soltar o cão não foi necessidade tática, foi liturgia. É o mesmo princípio que levava centuriões romanos a desfilar leões acorrentados pelas províncias conquistadas: não se trata de resolver o problema, trata-se de mostrar quem manda. O vídeo não circulou por acidente. Ele é parte do produto. O cidadão assiste, sente um misto de alívio e medo, e inconscientemente reafirma sua dependência do Leviatã que o protege, inclusive de si mesmo.

A grande ironia é que o funcionário de estacionamento, a vítima original, trabalha numa das engrenagens mais detestadas da burocracia urbana: a regulação do espaço público que transforma calçadas em fonte de receita municipal. Estacionamentos em San Diego são máquinas de multa, e os funcionários que os operam são cobradores de um tributo disfarçado de serviço. Isso não justifica nem de longe a violência sofrida pelo trabalhador, que merece toda solidariedade. Mas revela a teia: o Estado cria a fricção ao transformar cada metro quadrado de asfalto em oportunidade de arrecadação, depois gasta o arrecadado treinando cachorros para lidar com as consequências da tensão que ele mesmo gerou. O contribuinte financia a causa e a resposta, paga a doença e o remédio, e ainda aplaude o veterinário de farda quando o cão morde o sujeito certo.

Ninguém pergunta por que um país que gasta mais em policiamento do que o PIB de nações inteiras não consegue evitar que um homem com uma faca ataque um civil num estacionamento. Ninguém questiona por que a solução para uma falha do sistema é sempre mais sistema, mais orçamento, mais unidades caninas, mais viaturas adaptadas, mais burocracia operacional. A resposta é simples e incômoda: porque o objetivo nunca foi proteger o cidadão. O objetivo é justificar o aparato. Cada crime não prevenido é um argumento a favor de mais verba. Cada vídeo de cão policial "neutralizando" um suspeito é um comercial involuntário do monopólio. E o povo, que paga a conta inteira sem ter escolhido o fornecedor, aplaude de pé, como plateia cativa que é.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.