Em Brusque, Santa Catarina, o cheiro que recebe o visitante não é de fumaça de pneu queimado nem de cadáver em calçada. É de cuca recém-saída do forno e de tecido saindo do tear. A cidade foi eleita, em 2025, a mais segura do Brasil, com índice de 1,4 ocorrências por cem mil habitantes, número que é dezesseis vezes menor que a média nacional. Dezesseis vezes. Coloque isso no papel e olhe um momento. Enquanto gestores públicos de Recife, Salvador, Fortaleza e da própria São Paulo gastam bilhões em secretarias de segurança com nomes cada vez mais criativos e resultados cada vez mais pífios, uma cidade de interior catarinense com chão de fábrica e imigrante alemão no sobrenome simplesmente decidiu, de forma quase enfadonha, ser segura. O escândalo não é Brusque. O escândalo é que ninguém no poder quer saber por quê.
A resposta, claro, é incômoda demais para o cardápio intelectual de Brasília. Brusque não chegou a esse índice porque o prefeito convocou uma cúpula de especialistas em segurança pública, nem porque implantou o décimo segundo programa federal de "cidadania e paz nos territórios vulneráveis". Chegou porque há trabalho. Há indústria têxtil que emprega, que disciplina o tempo, que cria rotina, que dá ao homem aquilo que a pobreza sem perspectiva retira antes de tudo: a razão para acordar cedo e não atirar em ninguém. A correlação entre desocupação e violência não é teoria de seminário. É o dado mais velho da sociologia humana, observado em todas as civilizações que tiveram o trabalho como categoria moral, não apenas econômica. Quando o homem tem ofício, tem dignidade. Quando tem dignidade, tem algo a perder. Quando tem algo a perder, pondera antes de destruir. É uma cadeia causal tão óbvia que precisou de décadas de academia financiada pelo Estado para ser obscurecida.
Há outro fator que o discurso oficial jamais admitirá: a composição histórica do tecido social local. O Vale do Itajaí foi colonizado, majoritariamente, por alemães e italianos que chegaram sem nada, sem subsídio, sem programa de inserção produtiva, sem nenhuma promessa do Estado além de um lote de terra e a própria sorte. Construíram cidades funcionais, limpas, industriosas, com índices de desenvolvimento que envergonham capitais estaduais. Não porque a raça importa, detalhe que os desonestos intelectuais adoram insinuar para desviar o debate. Mas porque a cultura importa. A cultura do trabalho, da família como unidade de transmissão de valores, da poupança como virtude e do Estado como entidade de quem se desconfia por princípio. Essa combinação produziu cidades que funcionam. E cidades que funcionam não precisam de ministério da segurança com orçamento de país rico e resultado de república das bananas.
Siga o dinheiro e a pergunta se responde sozinha. Os estados com os piores índices de violência do Brasil são, invariavelmente, os mesmos com maior dependência de transferências federais, maior proporção de empregos públicos em relação ao setor privado, maior peso do funcionalismo na renda local e maior tradição de política assistencialista como moeda eleitoral. Não é coincidência. É uma relação de causa e efeito que qualquer homem honesto, livre de comprometimentos ideológicos, consegue enxergar olhando os dados sem filtro. O Estado que promete proteger tudo e a todos termina por produzir populações incapazes de se proteger sozinhas, dependentes do próximo programa, do próximo benefício, da próxima promessa de campanha. A violência é o produto natural de sociedades que foram desaprendendo a funcionar por conta própria enquanto o Estado crescia prometendo fazer tudo em troca de votos.
Brusque não ganhou nenhum prêmio do governo federal. Não foi beneficiada por nenhuma política nacional de segurança. Não tem laboratório de inovação em gestão pública financiado por organismo internacional. Tem fábrica, tem família, tem comunidade que se conhece, tem trabalho que ocupa e dignifica, e tem, consequentemente, a menor taxa de homicídios do país. A lição é simples a ponto de ser humilhante para toda uma geração de tecnocratas que vive de complicar o óbvio: onde as pessoas produzem e têm o que perder, elas não se matam. A civilização sempre soube disso. Só os modernos precisaram financiar pesquisas para esquecer.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.