Saiu pesquisa nova no Ceará e, como manda o figurino, dois nomes velhos lideram a corrida ao Senado. Um capitão de fala grossa e um ex-governador que já trocou de partido mais vezes do que o eleitor médio troca de geladeira aparecem na frente, num cenário em que a única novidade é o número à frente do percentual. Mil e seiscentas almas, ouvidas entre dezoito e dezenove de maio, supostamente representam um Estado de quase nove milhões de habitantes. A estatística, esse oráculo moderno, dispensa a conversa com o sujeito que paga ICMS sobre o feijão e diz, num passe de tabela cruzada, o que ele vai pensar daqui a um ano.

A pergunta que não cabe no questionário é a mais óbvia: o que faz um senador? Recebe perto de quarenta mil reais de salário base, mais auxílio-moradia, mais cota parlamentar, mais verba de gabinete, mais passagens, mais assessores nomeados em escala industrial, mais aposentadoria diferenciada, e tudo isso pago pelo cidadão que, no caixa do mercado, é tratado como suspeito de sonegar dois reais. A cadeira que esses dois candidatos disputam não é um posto de serviço público, é uma concessão vitalícia de privilégios travestida de representação popular. Quem entra nela, raramente sai pobre. Quem fica de fora, continua pagando.

O fenômeno é tão antigo quanto a república romana tardia, quando a plebe acreditava escolher tribunos e os tribunos já vinham escolhidos pelas famílias que controlavam o erário. Mudou o figurino, mudou o sotaque, a estrutura é a mesma. No Ceará de hoje, o nome do partido é detalhe decorativo; o que importa é a máquina, a rede de prefeituras, o controle das emendas, o tio do candidato que controla a rádio do interior, o cunhado que comanda a secretaria de obras. A pesquisa apenas fotografa o resultado da engenharia, e a imprensa repete a foto como se fosse a paisagem.

Note a perfeição do silogismo invertido que nos vendem todos os dias. Premissa maior: democracia é escolha livre. Premissa menor: o cearense vai escolher entre dois nomes que já viveram décadas do mesmo erário que dizem querer reformar. Conclusão honesta: não há escolha, há rodízio. O eleitor é convidado a participar do banquete escolhendo de qual lado da mesa virão os pratos, sem nunca lhe ocorrer perguntar quem comprou os ingredientes e por que ele é, simultaneamente, o convidado e o boi do churrasco.

O detalhe saboroso é que esses dois caciques, em tese adversários, dependem do mesmo combustível para existir politicamente: o dinheiro que sai compulsoriamente do contracheque do funcionário público, do caminhoneiro autônomo, do feirante do Mucuripe. Sem confisco tributário não há emenda parlamentar; sem emenda não há prefeito apadrinhado; sem prefeito apadrinhado não há voto cativo; sem voto cativo não há senador. A cadeia produtiva da casta é mais previsível que a do petróleo, e funciona com margem de lucro que faria corar qualquer monopólio privado.

Daqui até a eleição, virão mais pesquisas, mais cenários, mais debates onde os finalistas concordarão em noventa por cento das pautas e brigarão pelos dez por cento que rendem manchete. Enquanto isso, a pergunta original continua sem resposta: quem paga essa festa, e quem, exatamente, recebe? Resposta curta, para quem ainda não percebeu: você paga, eles recebem, e a pesquisa serve só para você ir se acostumando com os nomes dos próximos credores.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.