Carlos Bolsonaro foi visitar o pai no hospital e voltou com um boletim que, em qualquer país civilizado, seria apenas uma nota sobre a saúde de um senhor de setenta e poucos anos. Disse que os soluços diminuíram, que os medicamentos estão sendo reduzidos, que o ex-presidente está "mais forte". "O bicho é bruto demais", escreveu o filho, com aquele carinho rústico que a família Bolsonaro jamais tentou disfarçar de etiqueta palaciana. Até aí, um fato humano, uma cena doméstica. Mas nada que envolva Jair Bolsonaro é apenas doméstico neste país, porque o sistema político brasileiro investiu tempo, dinheiro público e capital institucional demais para destruir esse homem, e agora precisa administrar o incômodo de que ele continua vivo, respirando e, pelo visto, recuperando forças.
Repare no que acontece quando um ex-presidente que foi cassado, preso, julgado e condenado em tempo recorde aparece debilitado numa cama de hospital. Metade da imprensa cobre com aquela piedade ensaiada de velório antecipado, esperando secretamente o desfecho que tornaria tudo mais simples para o arranjo vigente. A outra metade ignora, porque cobrir a fragilidade do adversário humaniza, e humanizar o inimigo é o pecado capital da guerra de narrativas. Ninguém pergunta o óbvio: como é que um sujeito que governou o país há menos de quatro anos está nessa situação? Que combinação de processo judicial ininterrupto, pressão institucional sistemática e estresse crônico contribuiu para deteriorar a saúde de um homem que, goste-se ou não dele, carregou nas costas a maior votação da história do país? A política brasileira tem um custo biológico que nenhum analista contabiliza, mas que os corpos dos perseguidos registram com precisão de sismógrafo.
A família Bolsonaro sempre foi acusada de transformar tudo em espetáculo, mas o que Carlos fez foi simplesmente o que qualquer filho faz: visitou o pai doente e contou aos amigos como ele está. A diferença é que os "amigos" são milhões de seguidores, e cada palavra vira munição ou escudo dependendo do lado da trincheira em que você se sentou. "O bicho é bruto demais" não é estratégia de comunicação, é o idioma afetivo de uma família que nunca frequentou salões e não pretende começar agora. Enquanto isso, o governo federal segue gastando bilhões que não tem, o Banco Central segue imprimindo o que não existe, o Congresso segue negociando cargos como quem reparte um bolo de aniversário, e a inflação segue comendo o salário de quem levanta às cinco da manhã. Mas o assunto do dia é se Bolsonaro está ou não com soluço. O circo precisa do palhaço triste para que ninguém olhe para o mágico que está esvaziando a carteira da plateia.
Há algo de revelador no fato de que a saúde de um homem politicamente neutralizado ainda domine o noticiário. Se Bolsonaro fosse irrelevante, como seus adversários adoram repetir, por que cada boletim médico vira manchete nacional? A resposta é simples e incômoda: porque ele continua sendo o fantasma que assombra o sistema. Um fantasma preso, inelegível, hospitalizado, e ainda assim capaz de mobilizar mais atenção popular do que qualquer projeto de lei tramitando no Congresso. Isso diz menos sobre Bolsonaro e mais sobre o vazio absoluto que o establishment político oferece como alternativa. Quando o único espetáculo que o poder consegue montar é a destruição de um adversário, e mesmo assim o adversário se recusa a desaparecer, o que está em crise não é a oposição. É o próprio poder, que gastou toda sua energia perseguindo um homem em vez de governar um país.
O bicho é bruto, disse Carlos. Pode ser. Mas brutalidade de verdade não é resistir a uma internação hospitalar. Brutalidade é o que o aparato estatal faz quando decide que alguém precisa ser eliminado da vida pública: mobiliza tribunais, ativa inquéritos, coordena vazamentos, sequestra passaporte, decreta prisão, e depois se apresenta diante das câmeras com a serenidade de quem apenas "cumpriu a lei". Se Bolsonaro sobreviver a tudo isso e sair do hospital andando, terá provado, no mínimo, que o corpo humano é mais resistente que a institucionalidade brasileira. E se não sobreviver, podem ter certeza de que os mesmos que o destruíram serão os primeiros a prestar homenagens póstumas, porque hipocrisia é o único combustível que nunca falta no tanque da República.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.