Vinte e nove anos depois, um dos autores mais prolíficos da casa resolveu abrir a gaveta e mostrar o que estava lá dentro. Vira Lata, novela de 1996, jamais reprisada, engavetada como se fosse um parente bêbado em foto de casamento. O criador veio às redes contar o óbvio que todo mundo que trabalhou em televisão sabe e finge não saber: elenco empurrado goela abaixo, briga com a direção, e aquele clima particular de feudo medieval em que o servo sorri para o senhor enquanto reza para não ser decapitado na próxima reunião.
A questão interessante não é a novela ter sido ruim ou boa. Isso é irrelevante. A questão é entender por que certos produtos somem do ar e outros voltam em loop eterno. Quem decide? Com base em quê? E, sobretudo, com o dinheiro de quem? Porque convém lembrar que a emissora em questão construiu seu império em cima de concessão pública, espectro eletromagnético cedido pelo Estado, incentivos fiscais gordos, lei Rouanet e toda uma parafernália de privilégios que o contribuinte paga sem nunca ter sido consultado. O bolso é coletivizado; a decisão editorial, monárquica.
Há um padrão aqui que transcende o fofoqueiro de bastidor. Toda vez que se investiga a fundo um império cultural de aparência glamourosa, encontra-se o mesmo arranjo: capital privado na vitrine, subsídio estatal no alicerce, e no meio um corpo de executivos que decide o que vira memória nacional e o que vira pó. A reprise é currículo. A novela reprisada entra na mitologia afetiva do país. A novela que não é reprisada deixa de existir, como aqueles comissários soviéticos que sumiam das fotografias oficiais após cair em desgraça. Retoque de história em nome da narrativa vigente.
O autor que hoje desabafa nas redes faz, sem perceber, o trabalho que a imprensa deveria fazer há décadas e não fez porque depende do mesmo anunciante, do mesmo jabá, do mesmo calendário de lançamentos. Ele descreve o cotidiano de uma fábrica onde o autor, teoricamente dono da obra, é mero peão numa engrenagem que decide pelo gosto do comercial, pelo capricho do diretor artístico, pela política interna de quem dorme com quem no décimo andar. E o espectador, coitado, acha que está assistindo arte. Está assistindo reunião de diretoria com figurino.
A reclamação sobre escalação forçada de elenco diz tudo. O contrato de exclusividade, aquela jaula dourada, transformava ator em gado de raça: marcado, numerado, distribuído conforme a conveniência do fazendeiro. Quem paga essa conta? O ator que aceita porque não tem para onde ir, o autor que engole porque perdeu a briga, o público que recebe o produto final achando que foi escolha livre, e o contribuinte que banca o espectro, os incentivos e a mitologia de que aquilo ali é o coração cultural da nação. Quatro pagadores, um único beneficiário: a mão que escolhe o que some do catálogo.
No fim, o que este desabafo tardio escancara é que não existe mercado cultural livre onde há monopólio subsidiado. Existe curadoria de cima para baixo, com verniz de meritocracia. Vira Lata não foi reprisada não porque era ruim, mas porque alguém, em algum momento, com algum interesse, decidiu que não valia o esforço. E essa decisão, tomada numa sala fechada por gente cujo nome o público jamais saberá, vale mais do que a obra inteira de quem passou a vida escrevendo para a tela. O rei está nu, dirige a novela, escala o elenco e ainda decide qual capítulo da memória coletiva vai para o lixo. Resta rir, porque chorar não devolve o que nunca foi reprisado.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.