O escândalo está ali, escrito em letra miúda nos relatórios do BNDES e do Tesouro, mas ninguém dá manchete porque manchete dá voto e voto dá poder e poder, no Brasil, é justamente o que assinou os contratos. Cuba e Venezuela acumularam, ao longo de duas décadas de fraternidade ideológica, uma montanha de dívidas com o contribuinte brasileiro. Empréstimos disfarçados de financiamento à exportação, garantias soberanas oferecidas com a generosidade de quem dá dinheiro alheio, obras tocadas por empreiteiras escolhidas a dedo na sala de despacho. Agora vem a parte engraçada: o devedor não paga, o credor finge que cobra, e o pagador da conta, ou seja, o sujeito que acordou às cinco da manhã para pegar ônibus, é informado de que a operação foi um sucesso diplomático.
Repare na engenharia, porque ela é primorosa. O governo brasileiro pegava o dinheiro do imposto, repassava ao BNDES, o BNDES emprestava ao regime amigo, o regime amigo contratava a empreiteira brasileira, a empreiteira brasileira devolvia parte em propina e em campanha, e a dívida ficava registrada como ativo, ou seja, como se algum dia fosse voltar. Voltar de Havana? De Caracas? Quem acreditou nisso ou era cúmplice ou era ingênuo, e em política raramente se é ingênuo por acidente. O esquema tem nome técnico bonito, exportação de serviços, mas o nome popular é mais honesto: lavagem de dinheiro público com selo de cooperação Sul-Sul.
O argumento oficial era de que se tratava de solidariedade entre povos irmãos. Ora, povos não emprestam, povos trabalham. Quem empresta é governo, e governo só empresta o que tomou antes. A solidariedade, portanto, era extraída na ponta da carga tributária do brasileiro médio e entregue como afeto fraterno a regimes que prendem dissidentes, racionam comida e fuzilam quem tenta atravessar a fronteira a nado. Há um nome antigo para esse tipo de generosidade compulsória: chamava-se tributo ao suserano, e os camponeses medievais pelo menos sabiam para quem estavam pagando.
O mais delicioso da farsa é o silogismo que ela impõe. Se a dívida foi contraída por aliados ideológicos, se a dívida não foi paga, se a dívida foi sistematicamente perdoada ou rolada, então a operação inteira nunca foi empréstimo, foi transferência. Transferência de quem, para quem, em troca de quê? Aí está a pergunta que o noticiário grande evita com a delicadeza de quem desvia da poça na calçada. A resposta, qualquer um adivinha: do bolso do trabalhador brasileiro para o caixa do partido amigo, com escala obrigatória nos cofres da burocracia caribenha e bolivariana.
Agora aparecem os herdeiros políticos do esquema com cara de paisagem, jurando que a culpa é do antecessor, do imperialismo, do mercado, da seca, do bloqueio, da lua minguante. É o velho truque do trapaceiro flagrado: quando a carta cai da manga, ele aponta para o teto e grita olha o passarinho. O passarinho, no caso, é a narrativa de que aquilo foi política externa altiva e ativa. Altiva foi a comissão. Ativa foi a sangria.
O contribuinte, esse personagem mudo da história econômica brasileira, segue financiando a festa que não foi convidado, pagando a conta do jantar que não comeu, e ouvindo no telejornal que a República das Bananas precisa de mais ajuda humanitária. Humanitária para quem governa lá, evidentemente, porque para o cubano comum chega arroz furtado e para o venezuelano comum chega fila de farinha. A pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta continua a mesma, teimosa como cobrador de aluguel: quem pagou e quem recebeu? Pagou você. Recebeu eles. E o aperto de mão entre os dois lados do balcão foi feito por cima da sua cabeça.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.