O episódio é curto e revelador. Numa entrevista de tom íntimo, a atriz Carolina Ferraz, ao recordar os oito anos de casamento com o médico Marcelo Marins, deixou escapar a frase que ficou: poderia ter colocado o ex na cadeia. Não colocou, claro. Não houve processo, não houve sentença, não houve contraditório. Houve, sim, microfone, câmera e plateia. A acusação foi lançada como quem comenta o tempo, e o acusado, ausente do estúdio, não teve direito a réplica nem a defesa. Estava condenado antes de saber que estava sendo julgado.
Há aqui um truque retórico antiquíssimo, e convém nomeá-lo sem rodeios. Quando alguém diz que poderia ter feito algo grave a outrem, mas generosamente se absteve, o que essa pessoa está fazendo é exibir poder sem pagar o preço da prova. É a velha tática do soberano que mostra a forca no horizonte para que ninguém precise ser enforcado. A diferença é que, no antigo regime, o rei ao menos assumia o cetro publicamente; aqui, a soberania é exercida em tom de desabafo, embalada na estética do testemunho terapêutico, e por isso passa por catarse quando deveria passar por escrutínio.
Siga o que circula, e a coisa fica mais clara. O que se transaciona nessa cena não é dinheiro vivo, é capital reputacional, que hoje vale tanto ou mais. A entrevistada sai engrandecida pela coragem narrada, o canal sai com cliques e engajamento, o público sai com a sensação morna de ter participado de algo importante, e o ex-marido sai com uma mancha indelével no nome, sem que se tenha ouvido sequer uma testemunha. Quem paga essa conta? Paga o ausente, paga a presunção de inocência, paga a noção elementar de que acusação grave se faz em vara competente, e não em estúdio iluminado com luz quente e plantinha decorativa ao fundo.
O argumento se monta sozinho, basta encaixar as peças. Toda imputação de crime exige prova; ou se prova em foro próprio, ou se cala em foro público; logo, anunciar em rede nacional a possibilidade da cadeia alheia, sem ter levado o caso adiante, é o exato oposto da justiça, é a paródia dela. E paródia da justiça tem nome técnico, embora ninguém goste de ouvir: chama-se linchamento, na sua versão higienizada, sem cordas, sem fogueiras, com hashtag e legenda em itálico. O figurino mudou, a essência não.
Convém perguntar também por que esse expediente prosperou tanto. Prosperou porque o tribunal das mídias é mais barato, mais rápido e mais lucrativo do que o tribunal de verdade. No fórum, advogados custam, prazos atrasam, juízes contradizem. No estúdio, o roteiro é seu, o corte é seu, a narrativa é sua, e a contraprova, se houver, chega depois que a manchete já fez seu trabalho. É um mercado, e como todo mercado prospera onde os custos são externalizados a terceiros. Os custos, no caso, são jogados sobre quem não está na sala.
O leitor desconfiado, esse que não engole peixe com escama, há de notar o seguinte. Se a denúncia era séria, o lugar dela era a delegacia, oito anos atrás, dezoito anos atrás, agora. Se era para ser dita só agora, em entrevista promocional, então ou já não é tão séria, ou nunca pretendeu ser séria no sentido jurídico do termo, e foi sempre, do começo ao fim, peça de teatro emocional vendida a varejo. Em qualquer dos casos, a única conclusão honesta é uma só, e não cabe nem desconto nem rodeio: quem usa a possibilidade da cadeia como adereço de entrevista deveria, no mínimo, ouvir do público o silêncio que o assunto merece. O resto é aplauso comprado, e aplauso comprado, todo mundo sabe, é o som mais barato do mundo.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.