O carro do senador Alexander López, do mesmo partido do presidente Gustavo Petro, foi varado por tiros nesta terça-feira no departamento de Cauca, sudoeste colombiano, faltando duas semanas para as eleições. O próprio governo atribuiu o ataque a dissidentes das Farc, aqueles que rejeitaram o acordo de paz de 2016 e seguiram fazendo o que sempre fizeram: cobrar pedágio com fuzil, traficar cocaína e plantar bandeira vermelha em território onde o Estado oficial só aparece para coletar imposto e tirar foto. O detalhe saboroso é que o presidente que governa o país hoje foi guerrilheiro do M-19, e o senador alvejado integra a coalizão que decidiu transformar terrorista em interlocutor, sequestrador em parceiro de mesa. A bala que rasgou o vidro do carro é, em última instância, uma bala financiada pela política de paz que prometia o contrário.

Há uma lógica simples que qualquer camponês do Cauca entende melhor que qualquer ministro de Bogotá. Se o sujeito que sequestra, mata e trafica recebe anistia, cadeira no parlamento e verba de reintegração, o recado para o próximo aspirante a bandido é cristalino: a violência paga, a paciência rende, e o Estado sempre acaba se ajoelhando se você empilhar cadáveres suficientes. Premiar o comportamento criminoso é a maneira mais eficaz já inventada de multiplicá-lo. Não é teoria, é aritmética. A Colômbia assinou em 2016 um cheque em branco contra a própria segurança e agora descobre, atônita, que o cheque foi descontado em chumbo grosso.

Vale seguir o dinheiro, porque é ali que a fábula se desfaz. Bilhões de dólares foram canalizados para o pacote de reintegração, fundos internacionais, ONGs simpáticas ao processo, consultorias de paz, comissões da verdade, observatórios de direitos humanos e toda a fauna parasitária que vive do conflito sem nunca pisar nele. Quem pagou? O camponês colombiano, esmagado por impostos, e o contribuinte europeu, sangrado por benevolência alheia. Quem recebeu? Ex-comandantes guerrilheiros transformados em palestrantes, burocratas internacionais com salário em euro, e dissidentes que pegaram o dinheiro, queimaram o acordo e voltaram para o mato com armamento renovado. A paz virou negócio, e como todo negócio subsidiado, produziu exatamente o oposto do que prometeu vender.

A história está cheia desses arranjos, e o resultado é sempre o mesmo. Roma comprou tranquilidade dos bárbaros com ouro até descobrir, tarde demais, que estava financiando o próprio saque. A República de Weimar tolerou milícias na rua em nome da estabilidade e entregou as chaves a quem usava a estabilidade como degrau. Toda vez que um governo decide que a ordem civilizada é negociável, que o monopólio legítimo da força pode ser dividido em prestações suaves com quem desafia esse mesmo monopólio, o resultado é o colapso da própria ideia de lei. Não existe meia soberania. Ou o Estado garante a vida e a propriedade do cidadão, ou ele é apenas um cartel a mais disputando território, e neste caso costuma ser o cartel mais ineficiente da praça.

O mais cômico, e também o mais sinistro, é ver o governo Petro espantado com o ataque, como se o roteiro não estivesse escrito desde o primeiro abraço entre Palácio de Nariño e ex-comandante das Farc. O socialista que prometia paz total acabou administrando uma guerra fragmentada em dezenas de quadrilhas, cada uma com sua sigla, sua rota de cocaína e sua tabela de preço para sequestro. A paz total virou bagunça total, e a bagunça total é justamente o ambiente em que florescem as soluções autoritárias que esse mesmo governo já tem na manga: mais Estado, mais imposto, mais poder concentrado, mais decreto. O caos não é falha do projeto, é insumo. Quem não enxerga isso ainda acredita em Papai Noel bolivariano.

Ao final, sobra a pergunta de sempre, aquela que nenhum comunicado oficial responderá. Quem paga essa conta? O colombiano comum, que tranca a porta cedo, paga propina ao traficante para atravessar a estrada da própria casa e ainda é tributado para sustentar a burocracia que negocia com quem o aterroriza. Quem recebe? O bandido convertido em político, o político convertido em estadista de palestra, e a indústria internacional de paz que precisa do conflito como o padre precisa do pecado. O tiro no carro do senador não foi um acidente do processo. Foi o processo funcionando exatamente como projetado por quem nunca quis paz alguma, apenas o monopólio da violência sob nova gerência.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.