A história saiu como saem todas as histórias que deveriam ter saído antes: por acidente. Fotos de um suposto encontro casual em resort de luxo entre Mike Vrabel, técnico do New England Patriots, e Dianna Russini, repórter de NFL, evoluíram em poucos dias para a constatação de que o tal encontro casual tinha pelo menos seis anos de quilometragem. Não foi um deslize, foi uma carreira paralela. E enquanto a relação rendia troca de mensagens, viagens e intimidade, a moça assinava reportagens sobre o time do moço com a pose grave de quem oferece análise independente ao público. O torcedor americano, esse animal dócil que acredita em isenção jornalística como acredita em Papai Noel, consumiu durante seis temporadas o produto de uma fonte que dormia com o objeto da cobertura.
Convém parar um instante na anatomia do golpe, porque ela é mais elegante do que parece. Jornalismo esportivo de elite vende uma mercadoria muito específica: a ilusão de acesso privilegiado disfarçada de apuração rigorosa. O repórter que sabe primeiro vale mais do que o repórter que sabe direito, e o mercado paga rios de dinheiro pelo furo, pelo bastidor, pelo sussurro de vestiário. Ora, se o critério é proximidade com a fonte, a proximidade horizontal sobre o colchão é apenas a forma mais eficiente de produzir o ativo que a redação compra. O escândalo não é a exceção do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar.
Aqui entra o pequeno silogismo que ninguém quer encarar. Se a função declarada do repórter é informar com isenção, e se a relação íntima com a fonte destrói por definição essa isenção, então toda matéria assinada nesses seis anos é, na melhor das hipóteses, propaganda travestida. Não existe meio termo, não existe atenuante, não existe a desculpa preguiçosa de que ela cobria a liga inteira e não só o time dele. Quem escreve sobre a NFL e dorme com um técnico da NFL contamina cada linha que escreve sobre a NFL, inclusive as que tratam dos rivais, porque favorecer o amante por omissão dos adversários é a forma mais antiga de favorecer o amante.
E os patrões? Os patrões farão a dança ritual de sempre. Pediram desculpas pela mancha na credibilidade da casa, criarão um comitê de revisão editorial, talvez ofereçam a cabeça da repórter à fogueira pública para salvar a marca, e seguirão vendendo o mesmo produto na semana seguinte com outra cara, outro nome, outra fonte. Porque a indústria do esporte profissional movimenta bilhões em direitos de transmissão, contratos de patrocínio e apostas, e nenhum desses bilhões tolera que o público desconfie demais do espetáculo. O jornalismo esportivo é o departamento de relações públicas da liga fingindo ser quarto poder, e o caso atual apenas tirou a fantasia por um instante curto antes que a normalidade se restabeleça.
Quem paga essa conta é, como sempre, o sujeito mais distante da mesa. O torcedor que comprou camisa, ingresso, pacote de TV a cabo, assinatura de portal especializado e aposta esportiva acreditando que tinha informação confiável para tomar decisões, esse sujeito é o financiador involuntário de uma comédia romântica de seis temporadas. Ele bancou a estabilidade da carreira da repórter via audiência, bancou a estabilidade da carreira do técnico via bilheteria, e ainda recebeu, de brinde, a oportunidade de ser tratado como ingênuo quando reclamar. O preço da farsa nunca aparece no boleto, mas é sempre cobrado, e quem assina embaixo é quem nunca foi convidado para o resort.
Quando todos na redação juram que não sabiam, lembre-se de uma coisa simples: ou sabiam e calaram, ou não sabiam e são incompetentes, e em qualquer das duas hipóteses o produto vendido era defeituoso. O resto é maquiagem corporativa para que o circo continue, os contratos sejam renovados e o próximo casal repita a fórmula com mais discrição. Quem paga? O torcedor, o anunciante enganado, o assinante crédulo. Quem recebe? O técnico que ganhou cobertura amistosa, a repórter que ganhou furos exclusivos, o veículo que ganhou tráfego e a liga que ganhou narrativa controlada. O jogo só não é justo para quem acreditou que era jogo.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.