O dado saiu numa revista científica respeitada e foi noticiado com aquele ar de fatalidade meteorológica, como se câncer de pâncreas em jovens fosse chuva de verão, vem porque tem que vir. A incidência e a mortalidade da doença em pessoas com até 49 anos devem subir nas próximas décadas, e a manchete trata o fenômeno como se fosse obra do destino, da genética caprichosa, do azar coletivo. Curioso, porque quando a humanidade conviveu por milênios sem essa epidemia precoce, ninguém saía morrendo de pâncreas aos trinta e cinco enquanto comia mandioca, peixe e fruta da estação. Algo mudou, e o algo não foi o DNA da espécie.

O que mudou está na prateleira do supermercado, no rótulo cheio de palavras impronunciáveis, no óleo industrial que substituiu a banha, no xarope de milho que invadiu tudo, no ultraprocessado que virou alimento básico de uma geração que cresceu acreditando que biscoito recheado era lanche legítimo. A indústria que fabrica essa comida de mentira fatura bilhões, paga estudos convenientes, financia associações de nutricionistas, patrocina congressos médicos e contrata agências de relações públicas para garantir que ninguém ligue os pontos em voz alta. O resultado é o que se vê, populações inteiras com fígado gordo aos vinte, diabetes aos trinta e tumores aos quarenta, tudo enquanto a televisão continua vendendo refrigerante como se fosse água benta.

A trilha do dinheiro é generosa com quem sabe segui-la. Adoecer cedo movimenta uma engrenagem fabulosa. Primeiro o alimento industrial vende doença travestida de prazer barato. Depois a indústria farmacêutica vende remédio para a doença que o alimento causou. No meio do caminho, o sistema de saúde, público ou privado, cobra a conta do cidadão na forma de imposto, mensalidade ou desespero na fila de espera. Não existe perdedor nesse arranjo, exceto o sujeito de quarenta anos que descobre num exame de rotina que tem seis meses de vida. Esse, sim, paga tudo, paga com o corpo, paga com a poupança, paga com a família que fica.

E o Estado, esse fiscal solene que jura proteger a saúde pública, faz o quê? Subsidia o açúcar, isenta o agronegócio que produz a soja transgênica do óleo barato, regulamenta o tamanho da letra do rótulo enquanto deixa a substância passar livre, e ainda cobra imposto sobre o suplemento natural que poderia ajudar. A lógica é antiga, vem desde o tempo em que o império romano distribuía pão de farinha adulterada para manter a plebe quieta. Plebe doente reclama menos, vota mais no salvador da pátria de plantão e morre antes de aposentar, o que alivia o caixa da previdência. Coincidência? Quem acredita em coincidência sistemática deveria desconfiar de si mesmo.

Enquanto isso, o jovem de hoje recebe o conselho oficial de comer mais cereais matinais, beber leite desnatado, evitar gordura animal e confiar no especialista certificado pela mesma agência regulatória que tem ex-funcionários da Big Food sentados no conselho. Pergunte a esse especialista sobre jejum, sobre comida de verdade, sobre o que a avó dele comia, e veja a cara de pânico do erudito diplomado. A guerra cultural mais silenciosa do nosso tempo se trava no prato, e a maioria está perdendo sem nem saber que está em campo de batalha.

O recado da estatística é brutal e libertador ao mesmo tempo. Brutal porque mostra que a conta vai chegar, e está chegando mais cedo. Libertador porque expõe, para quem tem olhos, que a saúde nunca foi monopólio do Estado nem cortesia da indústria, é responsabilidade individual exercida com discernimento contra um ambiente desenhado para adoecer. Quem entende isso fecha o pacote do ultraprocessado, desliga a propaganda, ignora a pirâmide alimentar oficial e recupera o controle do próprio corpo. Quem não entende continuará pagando a conta, com juros, e a conta final é cobrada num leito de UTI onde nenhuma estatística serve de consolo.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.