Enquanto ministros do mundo inteiro discursam sobre transição energética com a voz embargada de quem descobriu Deus, uma empresa de Ningde, na província chinesa de Fujian, fatura 40,7% de tudo que se produz em bateria para veículo elétrico no planeta. Não é liderança, é hegemonia. E hegemonia desse tamanho não se constrói com inovação solitária num galpão, se constrói com Estado por trás, subsídio na veia, política industrial milimétrica e a complacência envergonhada dos concorrentes que fingem competir enquanto pagam pedágio.

O dado mais saboroso, aquele que devia constar em letras garrafais nos relatórios de sustentabilidade que ninguém lê, é o seguinte: essa fabricante de baterias lucra mais sozinha do que as sete maiores montadoras chinesas juntas. Leia de novo. A empresa que faz a peça lucra mais do que sete empresas que fazem o carro inteiro. Isso só acontece quando existe gargalo monopolístico, quando o fornecedor virou senhor feudal e os fabricantes de automóvel viraram servos da gleba pagando dízimo em yuan. Quem manda no preço manda no jogo, e quem manda no jogo decide quem vive e quem fecha as portas.

Reparem na elegância do arranjo. O Ocidente passou duas décadas demonizando o motor a combustão, criando metas absurdas de descarbonização, proibindo a venda de veículos a gasolina para 2035, subsidiando com dinheiro do contribuinte cada carrinho elétrico que sai da concessionária. Resultado prático dessa cruzada moral: transferiu-se a dependência do petróleo árabe para a dependência do lítio, do cobalto e do níquel processados por uma única potência asiática, com uma empresa específica controlando o coração da cadeia. Trocaram seis por meia dúzia, só que a meia dúzia agora fala outra língua e tem assento permanente no Conselho de Segurança.

A lógica é cristalina e dispensa diploma de economista. Se você obriga por lei que todo carro novo seja elétrico, você obriga por consequência que toda montadora compre bateria. Se 40,7% das baterias do mundo saem de um único fornecedor, você acaba de entregar a esse fornecedor o poder de definir margem, prazo, especificação e, no limite, quem continua existindo no mercado automotivo. As premissas estavam todas lá desde o começo, bastava ler o decreto para enxergar quem ia ficar rico. Os burocratas europeus que assinaram a sentença de morte da indústria alemã sabiam exatamente o que estavam fazendo, ou eram incompetentes a ponto de não merecer o salário que recebem. Escolham a hipótese mais caridosa.

E aí entra a parte que ninguém quer falar em jantar de gente bem pensante. A retórica verde, com seu vocabulário de catequese laica, serviu de cortina de fumaça perfeita para a maior transferência geopolítica de poder industrial das últimas décadas. Cada Greta indignada, cada CEO posando de salvador do planeta, cada subsídio anunciado com pompa cívica, contribuiu para engordar o balanço de uma empresa que ninguém votou, ninguém fiscaliza, e que responde, em última instância, a um partido único que não precisa prestar contas a eleitor nenhum. O consenso global sobre transição energética não foi conquista do meio ambiente, foi conquista de quem soube precificar a virtude alheia.

A pergunta que importa, a única que importa, é a de sempre: quem paga e quem recebe? Paga o contribuinte ocidental, que financia com imposto o subsídio do carrinho elétrico do vizinho. Paga o consumidor, que compra um veículo mais caro e tecnologicamente refém. Pagam os operários alemães, italianos e franceses cujas fábricas fecham porque não conseguem competir com cadeia produtiva subsidiada do outro lado do mundo. E recebe, com sorriso discreto e dividendos polpudos, uma única empresa numa única província, que descobriu o segredo mais antigo do capitalismo de compadrio: deixe o Estado fazer a regra e sente para receber.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.