A CBF anunciou a Amazon como nova patrocinadora da seleção brasileira. O acordo cobre as equipes masculina, feminina e de base, abrangendo os ciclos das Copas de 2026 e 2027. A notícia foi recebida com o entusiasmo protocolar de sempre: fotos institucionais, declarações de "parceria histórica" e a promessa vaga de "desenvolvimento do futebol brasileiro". Até aí, nada que o brasileiro minimamente atento já não tenha visto dezenas de vezes. A pergunta que ninguém faz, porque a imprensa esportiva brasileira há décadas abdicou do jornalismo em favor da assessoria de imprensa disfarçada, é a única que importa: quanto entra, para quem vai, e o que o torcedor ganha com isso?
A Confederação Brasileira de Futebol é uma entidade privada que opera como se fosse pública, goza de isenções fiscais como se fosse filantrópica e administra o esporte mais popular do país como se fosse um feudo medieval. Os dirigentes se sucedem em arranjos internos que fariam corar um conclave papal, e os contratos de patrocínio, transmissão e licenciamento movimentam cifras que jamais são auditadas com o rigor que merecem. Quando a Amazon resolve colocar dinheiro nessa mesa, não é por amor ao futebol, não é por patriotismo e certamente não é por caridade. É porque alguém, em algum escritório de Seattle ou São Paulo, calculou que cada real investido na camisa amarela retorna multiplicado em dados de consumo, posicionamento de marca e acesso privilegiado a um mercado de duzentos milhões de pessoas que ainda assistem a jogo de seleção como se fosse missa de domingo.
O curioso é que ninguém pergunta o que a Amazon ganha além da exposição de marca. Estamos falando de uma corporação que domina o comércio eletrônico global, controla uma fatia monstruosa da infraestrutura de nuvem da internet, possui um serviço de streaming que já transmite futebol em vários países e coleta mais dados sobre hábitos de consumo do que qualquer governo conseguiria mesmo com toda a sua máquina de vigilância. O patrocínio à seleção brasileira não é um gasto, é um investimento em infraestrutura de influência. É comprar, com desconto, acesso direto ao coração emocional de uma nação inteira. E a CBF, que deveria ser a guardiã do futebol nacional, funciona como o porteiro que abre a porta para quem paga mais, sem jamais consultar os moradores do prédio.
Há um padrão que se repete na história das grandes federações esportivas, e quem conhece o funcionamento da FIFA, do COI ou de qualquer entidade que administra paixões populares sabe do que se trata. O esporte organizado virou, no século vinte, o maior veículo de lavagem de reputação corporativa e política que o mundo já conheceu. Empresas que pagam salários miseráveis em seus centros de distribuição aparecem sorrindo ao lado de jogadores de seleção. Governos que sufocam a liberdade de seus cidadãos sediam Copas do Mundo. E dirigentes que respondem a processos em três continentes discursam sobre "o poder transformador do esporte". O patrocínio não é o problema em si, porque numa economia livre qualquer empresa pode gastar seu dinheiro como bem entender. O problema é a opacidade do arranjo: o torcedor não sabe quanto a Amazon paga, não sabe para onde vai o dinheiro, não sabe que contrapartidas foram negociadas e não tem nenhum instrumento para cobrar prestação de contas de uma entidade que se comporta como república independente.
E aqui chegamos ao ponto que realmente deveria incomodar. A CBF recebe dinheiro de patrocínio, recebe dinheiro de transmissão, recebe dinheiro de licenciamento, recebe repasses públicos via Lei de Incentivo ao Esporte e opera com isenções tributárias generosas. Mesmo assim, o futebol de base definha, os estádios públicos construídos para a Copa de 2014 ainda pesam nos cofres estaduais, e a seleção feminina, agora incluída no pacote Amazon como se fosse um bônus promocional, passou décadas sendo tratada como nota de rodapé no orçamento da confederação. O dinheiro entra por cima e evapora antes de chegar embaixo. É a mais velha história do mundo: quem controla o balcão fica com a melhor fatia, e quem está na arquibancada paga o ingresso, compra a camisa oficial fabricada na Ásia e ainda aplaude o arranjo como se fosse uma benção. A Amazon não comprou a seleção brasileira; comprou acesso ao único ativo que a CBF realmente administra, que é a emoção de milhões de brasileiros. E esse ativo, convém lembrar, nunca pertenceu à confederação. Pertence ao torcedor, que nunca recebe dividendos.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.