A cena é quase cômica se não fosse cara. A CCJ do Senado remarcou a sabatina do indicado para a vaga aberta no Supremo, deslocando a sessão de 28 para 29 de abril, depois de antes tê-la antecipado. Um vaivém de datas que pareceria burocrático se não revelasse exatamente o que é: a coreografia cuidadosa de um ritual cujo desfecho todo mundo já conhece. O indicado é o advogado-geral da União, figura que passou anos defendendo juridicamente o governo que agora o empurra para a toga vitalícia. Não há surpresa, não há dúvida, não há suspense. Há calendário.

Chamar aquilo de sabatina é um insulto à palavra. Sabatina, no sentido original, pressupõe escrutínio, contraditório, risco real de reprovação. O que se vê na CCJ é outra coisa: uma cerimônia de confirmação embrulhada em jargão jurídico, onde senadores leem perguntas escritas por assessores, recebem respostas ensaiadas por advogados, e ao final estampam um carimbo que já estava dado desde o momento em que o presidente assinou a indicação. O adiamento de vinte e quatro horas não serve para aprofundar o exame. Serve para telefonar, para prometer cargos, para ajustar emendas, para fechar a conta política que custeia o espetáculo.

E é sempre útil lembrar a natureza do cargo em disputa. Estamos falando de uma cadeira vitalícia no tribunal que se arrogou o direito de decidir, em última instância, sobre a vida, o patrimônio e a liberdade de mais de duzentos milhões de brasileiros. Onze pessoas, não eleitas, nomeadas por critério político puro, decidindo o que é constitucional e o que não é, o que vale e o que não vale, o que você pode dizer e o que lhe custará uma multa ou uma cela. A cada indicação se reforça a lógica: quem ocupa o Executivo loteia o Judiciário, e o resultado é um tribunal que, estranhamente, quase nunca decide contra quem o nomeou. Coincidência improvável, como a de o sol nascer no leste todo santo dia.

Os romanos tinham um vício parecido. O imperador indicava o pretor, o pretor agradecia ao imperador, e a república, já morta havia séculos, continuava sendo invocada em discursos solenes enquanto o poder se concentrava numa só mão. A república brasileira, pelo visto, fez a mesma viagem, só que em jato comercial e com terno de alfaiate. O nome técnico do que acontece na CCJ é checks and balances; o nome popular é combinado não sai caro. Escolhe-se o mais leal, o mais próximo, o que conhece os dossiês por dentro, e depois se veste o arranjo com a linguagem pomposa do Estado de Direito. Os figurinos mudam, o enredo é o mesmo desde que existe corte em palácio.

Quem paga essa festa? Você, naturalmente. O salário do futuro ministro, os penduricalhos que triplicam esse salário, os assessores, os carros, os aviões, a aposentadoria vitalícia que virá um dia, tudo isso sai do imposto que a padaria recolhe na nota fiscal, do IPVA do entregador de aplicativo, da gasolina cuja metade do preço é tributo disfarçado de combustível. Quem recebe? O indicado, obviamente, mas também quem o indicou, porque ganha um voto confiável no tribunal superior pelas próximas duas ou três décadas. Cada decisão favorável ao governante nomeante é um juro pago pelo investimento feito hoje. O mercado dos favores é o único que nunca enfrenta recessão neste país.

Então o ritual seguirá seu curso no dia 29, com mesuras, perguntas decorativas e aplausos protocolares. O candidato jurará independência diante de quem o escolheu justamente por ser dependente. Os senadores elogiarão a biografia impecável de alguém cuja única biografia relevante é ter sido o advogado particular do governo travestido de advogado público. E no dia seguinte os jornais dirão que a democracia funcionou. Funcionou mesmo, mas não para quem paga a conta. Funcionou para quem escreveu o roteiro, escalou o elenco e vendeu os ingressos. O resto de nós que continue comprando pão e pagando imposto embutido no troco.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.