A governadora Celina Leão apareceu diante da imprensa neste domingo para informar, com a naturalidade de quem comenta o tempo, que o empréstimo do Distrito Federal junto ao BRB está "encaminhado". Encaminhado para onde, com qual taxa, em quantas parcelas, garantido por qual receita futura, ninguém sabe. O cidadão do DF descobriu apenas que está endividado, mas ainda não tem licença para conhecer o tamanho da própria dívida. É a tradicional aritmética de palácio: a conta chega depois, sempre depois, e nunca para quem assinou o contrato.

Convém lembrar o desenho do esquema antes que ele se perca na bruma das manchetes. O BRB é controlado pelo governo do Distrito Federal. Ou seja, o governo pega dinheiro emprestado de um banco que pertence ao próprio governo, usando como garantia a capacidade de extrair tributo do cidadão que mora ali. É o equivalente patrimonial de tirar dinheiro do bolso esquerdo, colocar no direito, cobrar juros de si mesmo e mandar a fatura para o vizinho. Na vida real, isso teria nome feio no código penal. No federalismo brasileiro, ganha o nome bonito de "operação de crédito" e vem acompanhado de coquetel de lançamento.

O detalhe que escapa ao noticiário oficial é a função real desse tipo de manobra. Quando o caixa do Tesouro não fecha, o governante tem duas saídas honestas e uma desonesta. As honestas são cortar gasto ou aumentar imposto na cara do contribuinte, ambas politicamente suicidas em ano pré-eleitoral. A desonesta é a antecipação de receita travestida de empréstimo, que joga o custo para a próxima gestão e, mais ainda, para a próxima geração. O endividado nominal é a Celina. O endividado real é o garçom de Taguatinga que pagará ICMS mais caro em 2028 sem entender por quê.

Os romanos chamavam isso de "panem et circenses" quando o senado precisava distrair a plebe enquanto distribuía terras públicas a clientes da corte. Mudaram os figurinos, o cenário virou Buriti, mas o roteiro é idêntico. Promete-se obra, anuncia-se gestão, fala-se em "encaminhamento", e o sigilo sobre os termos do contrato faz o resto do trabalho. Porque quem revela número convida auditoria, e auditoria é o pior inimigo de quem está construindo uma campanha sobre o crédito alheio. Silêncio, nesse ofício, vale mais que oratória.

Há ainda a camada mais cínica da história, aquela que ninguém comenta nos editoriais bem-comportados. O BRB, ao emprestar para o controlador, imobiliza recursos que poderiam virar crédito a pequeno empresário, financiamento imobiliário, capital de giro para o sujeito que sustenta a economia local sem precisar de coletiva no domingo. Cada real travado nesse arranjo incestuoso é um real que não financia a padaria da quadra 308. O governo se serve primeiro, e o resto da fila brasiliense que aguarde, de pé, segurando garantia, comprovante de renda e três fiadores.

Resta a pergunta fundamental, a única que importa quando se desconta a fumaça das declarações dominicais. Quem paga essa conta e quem recebe o cheque? Paga o contribuinte do DF, presente e futuro, sem ter sido consultado e sem direito a ver a planilha. Recebe, em primeiro lugar, o palanque da governadora, que entrega obra e cargo financiados por dinheiro que não é dela. Recebem, em segundo, os fornecedores escolhidos a dedo, os escritórios que estruturam a operação, a parentela política que vive da máquina. Quando um governante diz que está tudo "encaminhado" e se recusa a explicar o caminho, é porque o caminho não suporta luz. E o cidadão, mais uma vez, descobre que mora numa república cujo lema secreto é simples: você paga, eles decidem.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.