A cena é sempre a mesma e nunca envelhece. Martine Rothblatt, no comando da United Therapeutics, vendeu cerca de US$ 4,7 milhões em ações da própria companhia e a notícia foi despachada com aquele tom asséptico de comunicado corporativo, como se fosse rotina administrativa. Não é rotina. Quando o piloto pula do avião com o paraquedas dourado nas costas, os passageiros da classe econômica deveriam, no mínimo, olhar pela janela. O sujeito que assina os relatórios, que conversa com o conselho, que sabe qual pipeline está patinando e qual patente está prestes a expirar, decidiu trocar papel por dinheiro vivo. Isso comunica algo. E o que comunica raramente é otimismo.
Existe uma ficção jurídica muito conveniente chamada plano 10b5-1, que serve para pré-agendar vendas e blindar o executivo contra acusações de uso de informação privilegiada. Na prática, é uma licença poética para vender antes do mercado descobrir o que o vendedor já sabe. O regulador americano, é claro, aceita a fábula com um sorriso de tio bêbado em casamento, porque exigir de fato transparência significaria mexer com um andar inteiro de Manhattan que financia campanhas dos dois lados do corredor. O acionista pequeno, aquele que comprou pelo aplicativo achando que estava participando do futuro da medicina, fica com a conta e com a esperança.
Vale olhar para o que não se vê. United Therapeutics é uma empresa que vive de biotecnologia cardiopulmonar altamente subsidiada pelo sistema regulatório americano, com produtos cujo preço final é sustentado por um emaranhado de coberturas, patentes prorrogáveis e um Medicare que paga sem discutir. Todo esse arranjo produz margens que seriam impensáveis num mercado genuinamente livre, onde concorrência de verdade puxaria os preços para baixo e obrigaria o executivo a criar valor em vez de administrar reservas de caça. Quem embolsa milhões dessa forma não está sendo recompensado apenas pelo talento gerencial. Está sendo recompensado pela captura regulatória que o coloca dentro do jardim murado.
E aqui aparece o velho truque que a mídia econômica se recusa a nomear. Chama-se essa manobra de realocação de portfólio, diversificação patrimonial, gestão prudente da riqueza. São eufemismos elegantes para uma coisa muito simples, que é sair antes que a música pare. O executivo americano ganha em salário, ganha em bônus, ganha em stock options, ganha na venda das ações que recebeu de graça, e paga imposto sobre ganho de capital numa alíquota que faz o dentista do interior parecer um contribuinte de luxo. O sistema não é acidental. Foi construído tijolo por tijolo, lobby por lobby, comitê por comitê, para que o topo da pirâmide líquide sua posição em silêncio enquanto a base é convidada a segurar o papel em nome da confiança de longo prazo.
O acionista minoritário, esse fantasma útil que só aparece nos slides de responsabilidade corporativa, deveria fazer duas perguntas antes de comprar mais um lote. A primeira é o que o vendedor sabe que o comprador não sabe. A segunda é por que uma empresa que supostamente tem um futuro brilhante precisa que seu principal executivo troque papel por dinheiro em plena luz do dia. As respostas raramente cabem no press release, mas cabem na cotação dos próximos trimestres, quando a poeira baixa e alguém percebe que a pessoa mais bem informada da sala já estava do outro lado do balcão.
Fica a lição de sempre, aquela que ninguém quer imprimir nos manuais de finanças pessoais vendidos em aeroporto. Siga o dinheiro, não o discurso. Quem tem informação privilegiada não faz caridade, faz caixa. E o mercado, quando funciona minimamente, é justamente esse mecanismo brutal de revelar, com atraso e a duras penas, aquilo que os iniciados já sabiam há meses. O resto é papel de embrulho.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.