O chanceler do Irã disse, sem rodeios, que a reunião com a delegação americana em Islamabad produziu "zero lições aprendidas". Parou. Releia isso. Um representante oficial de um Estado soberano, num encontro diplomático de alto nível, convocado com pompa, coberto pela imprensa internacional, com hotéis pagos, passagens emitidas, seguranças mobilizados e assessores de terno, sentou, conversou, e saiu confessando publicamente que não serviu para nada. É quase um momento de poesia involuntária. Raro como eclipse. O Estado, aqui, não falhou apesar de si mesmo. Falhou por causa de si mesmo, que é a sua condição natural.
O problema não é Araghchi. O problema não é o negociador americano. O problema é a arquitetura inteira do processo. Quando dois Estados se sentam para negociar, não estão resolvendo um problema, estão administrando uma narrativa. Os iranianos precisam mostrar para a base doméstica que não cedem. Os americanos precisam mostrar para o Congresso e para Israel que não estão sendo ingênuos. Nenhum dos dois pode ceder o suficiente para que o acordo faça sentido técnico, porque ceder tecnicamente significa perder politicamente. O resultado é o que sempre foi: reuniões que geram comunicados que geram novas reuniões. O processo é o produto. A burocracia não existe para resolver, existe para existir.
Isso tem um nome antigo. Chama-se mudança de metas durante a negociação, que é o que Araghchi denunciou, irritado. Os americanos teriam alterado as condições do acordo no meio do caminho. Quem conhece minimamente a história das negociações entre potências sabe que isso não é erro, é técnica. Mover o alvo é a forma mais elegante de torpedear um acordo sem assumir a responsabilidade pelo fracasso. Atribui-se ao adversário a intransigência, colhe-se o crédito de ter "tentado" e passa-se para a próxima rodada com o cronômetro zerado. Impérios fizeram isso durante séculos, dos tratados de Westfália às conferências do pós-guerra, e o resultado foi sempre o mesmo: o acordo que importava nunca foi assinado, e o que foi assinado nunca importou.
Siga o dinheiro, porque ele sempre fala mais alto que o comunicado oficial. Sanções americanas contra o Irã existem há décadas e produziram o efeito oposto do declarado: em vez de dobrar o regime, financiaram sua narrativa de resistência, fortaleceram o mercado negro interno controlado pelos Guardiões da Revolução e empurraram Teerã para os braços de Moscou e Pequim. Cada rodada de negociação que fracassa renova o ciclo das sanções, que renova o ciclo dos contratos de desvio, que alimenta exatamente o sistema que as sanções dizem querer destruir. Quem lucra com a guerra fria permanente não são os iranianos comuns, que pagam a conta no supermercado, nem o contribuinte americano, que financia a máquina diplomática. Lucra quem sempre lucrou: o complexo industrial, o lobby de defesa, os intermediários do petróleo trocado por fora dos canais oficiais.
Araghchi, ao reclamar das "zero lições aprendidas", inadvertidamente ensinou mais sobre a natureza do poder estatal do que qualquer relatório do Conselho de Segurança da ONU jamais ensinou. O Estado não aprende lições porque não tem incentivo para aprender. Aprender significaria resolver. Resolver significaria encerrar o processo. Encerrar o processo significaria dispensar o aparato. Nenhuma instituição dissolve a si mesma voluntariamente, nenhuma burocracia agenda o próprio funeral. O chanceler iraniano saiu de Islamabad frustrado, mas voltará. O americano também. E na próxima rodada, em alguma cidade com nome exótico suficiente para aparecer no noticiário, os dois sentarão novamente, trocarão papéis que ninguém lerá integralmente, discutirão metas que serão trocadas no meio do caminho, e algum porta-voz anunciará que "o diálogo continua". O diálogo sempre continua. É tudo o que ele sabe fazer.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.