Ursula von der Leyen abriu o champanhe antes que a contagem terminasse. A celeridade diz mais sobre o que ela pensa de democracia do que qualquer discurso que ela já pronunciou na vida. Uma mulher que preside uma instituição cujos principais dirigentes nunca foram eleitos por ninguém, que comanda um orçamento de mais de dois trilhões de euros redistribuído por critérios que nenhum eleitor húngaro aprovou, que ameaçou e processou a Hungria por anos a fio por não se conformar às diretrizes de Bruxelas, essa mulher celebrou uma eleição como se fosse advogada da democracia. O sarcasmo se escreve sozinho.
A frase "a Hungria escolheu a Europa" merece exame cirúrgico, porque ela carrega uma premissa envenenada. Subentende que, quando a Hungria elegia Orbán de tempos em tempos, com maioria expressiva e dentro de todas as regras do jogo, ela estava escolhendo contra a Europa. Ou seja: eleição boa é eleição que dá o resultado que Bruxelas quer. O resto é populismo, ameaça à democracia, desvio a ser corrigido. É o velho truque do pedagogo autoritário: quando o aluno discorda, é porque ainda não aprendeu; quando concorda, é porque finalmente amadureceu. O aluno nunca tem razão própria, só tem graus variáveis de correção ou erro em relação à vontade do mestre.
Siga o dinheiro, como sempre. A Hungria recebe bilhões do fundo de coesão europeu, e Bruxelas passou anos bloqueando repasses por disputas políticas com Orbán, prática que a própria comissão eufemizou como "condicionalidade do Estado de Direito". Traduzindo sem eufemismo: obediência política comprada com fundos públicos coletados dos contribuintes alemães, franceses e holandeses e redistribuídos segundo critérios de lealdade ideológica. Quando um país receptor finalmente elege quem Bruxelas aprova, o torneira reabre. Quando elege quem Bruxelas desaprova, o torneira fecha. Há um nome técnico para esse mecanismo no mundo dos negócios. No mundo da política, chamam de "integração europeia".
Há uma ironia histórica densa nesse episódio que passa despercebida pela imprensa que só enxerga o que lhe é conveniente. Toda grande potência imperial da história ofereceu às nações menores alguma versão do mesmo pacote: paz, prosperidade, acesso aos mercados, proteção militar, mas em troca de soberania delegada, decisões tomadas no centro, e dirigentes locais que respondessem primeiro ao Império e depois ao próprio povo. Roma chamava isso de pax romana. Bruxelas chama de integração. O vocabulário muda, o mecanismo é o mesmo: o poder que organiza o espaço é o poder que define as regras, e quem não segue as regras perde os benefícios do espaço. Orbán resistiu. Seu sucessor, aparentemente, não vai resistir. Ursula abre o champanhe.
O que mais espanta não é a hipocrisia, que é previsível em qualquer burocracia supranacional que já sobreviveu ao seu propósito original. O que espanta é a arrogância de tornar a hipocrisia pública, celebrá-la em rede social como conquista moral, sem perceber ou sem se importar que a performance inteira revela o cinismo do projeto. Uma democracia saudável não precisa de tutores externos festejando seus resultados. Um povo soberano não precisa de aprovação de Bruxelas para validar sua escolha. O fato de que essa aprovação seja considerada natural, esperada, e motivo de festa, revela que a soberania húngara nunca foi levada a sério pelo establishment europeu. Era tolerada quando conveniente, desafiada quando não. Agora que o desafiador foi derrotado, o sorriso de satisfação de von der Leyen não é o sorriso de quem viu a democracia funcionar. É o sorriso de quem viu o funcionário recalcitrante finalmente pedir demissão.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.