A manchete chega embrulhada em papel de presente: a China acumulou 3,4 trilhões de dólares em reservas internacionais, um acréscimo de 31,7 bilhões em apenas um mês. O leitor distraído assina embaixo, achando que viu uma proeza contábil. Não viu. Viu o resultado matemático de um arranjo em que centenas de milhões de chineses trabalham por salários comprimidos, consomem menos do que produzem, e a diferença, em vez de virar geladeira nova ou frango no almoço, escorre para um cofre administrado por burocratas em Pequim. Reserva internacional dessa magnitude não é sinal de prosperidade do povo, é sinal de que o povo foi convencido, na marra ou na propaganda, a abrir mão do próprio consumo para que o partido tenha munição cambial.

O truque é antigo e tem nome simples: mercantilismo travestido de modernidade. Os faraós já enchiam silos com o trigo que arrancavam dos camponeses, alegando que era para o bem comum do Egito. Veneza, no auge, mantinha reservas de ouro num porão e cobrava do mundo o privilégio de navegar em suas rotas. A diferença é que hoje o silo se chama Banco Popular da China e o trigo se chama dólar americano. O camponês de Henan acorda às cinco da manhã, monta um iPhone, recebe trinta centavos do valor agregado, e o restante, depois de passar pelas mãos da estatal exportadora, vira reserva cambial para que o Politburo possa comprar dívida americana, financiar ditadores na África e colocar portos sob seu controle no Sri Lanka. Quem paga é o trabalhador chinês. Quem recebe é a nomenclatura do partido.

Há ainda o detalhe deliciosamente irônico de que metade desse cofre está denominada em moeda do inimigo declarado. Pequim acusa Washington de imperialismo decadente, jura que o dólar vai virar pó, e simultaneamente empilha papel verde em volumes que fariam corar qualquer tesoureiro do século XIX. Por quê? Porque o regime sabe perfeitamente que sua moeda não inspira confiança fora de suas fronteiras, que o yuan circula no exterior como circula promissória de cunhado, e que sem a âncora do dólar o castelo desaba em uma semana. A propaganda diz uma coisa, a planilha confessa outra. Julguemos pelo que fazem, não pelo que dizem.

O Ocidente, claro, financia o próprio enforcamento com sorriso no rosto. Cada container que sai de Xangai e atraca em Los Angeles transfere riqueza para um regime que prende advogados, esmaga uigures, fabrica balões espiões e ensaia invasão de Taiwan. O consumidor americano, narcotizado por preços baixos no Walmart, não percebe que está terceirizando a indústria, a tecnologia militar e, no limite, a soberania. O brasileiro, ainda mais ingênuo, comemora a soja vendida a Pequim como se vender matéria-prima a quem já dominou todo o resto da cadeia produtiva fosse triunfo nacional. Era assim que a Espanha do século XVI sangrava prata de Potosí para os banqueiros de Gênova e achava que estava ficando rica. Acabou descalça e endividada.

Reserva internacional, no fim das contas, é eufemismo para algo bem mais cru: poder de fogo geopolítico construído com a poupança forçada de um povo que não foi consultado. Quem manda nesse cofre não responde a eleição, não presta contas em audiência pública, não enfrenta CPI. Decide sozinho quando comprar ouro, quando despejar dívida americana no mercado para punir um adversário, quando subornar um presidente africano para conseguir uma mina de cobalto. Trinta e um bilhões a mais no caixa significam, em linguagem honesta, trinta e um bilhões a mais de coação disponível, trinta e um bilhões a mais de chantagem possível, trinta e um bilhões que saíram do almoço do operário e entraram no arsenal do mandarim.

E a imprensa econômica, fiel à sua vocação de manobrista do poder, noticia tudo isso com o entusiasmo de torcedor uniformizado, como se reportasse o placar de um amistoso. Não pergunta de onde veio, não pergunta para onde vai, não pergunta quem pagou a conta. Limita-se a aplaudir o número, que é o que se espera de quem confunde planilha com civilização. O rei está nu, vestido apenas de reservas cambiais, e os correspondentes acreditados em Pequim fingem que veem um manto de seda imperial. Rir é a única reação intelectualmente honesta. Rir, e perguntar de novo, sempre, a única pergunta que importa: quem paga e quem recebe?

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.