Duzentos aviões. É esse o número redondo, bonito de fazer manchete, que saiu do bolso chinês e entrou no caixa da Boeing na semana em que o presidente americano desceu em Pequim para sorrir ao lado do anfitrião comunista. A primeira encomenda desde 2017, justamente no ano em que a guerra comercial começou a azedar o caldo. Oito anos sem um pedido sequer, e de repente, no exato instante em que dois chefes de Estado posam para a foto, o céu se abre e chovem contratos. Quem acredita que isso é fruto de livre mercado, decisão racional de comprador soberano avaliando custo benefício de fuselagem, esse mesmo cidadão provavelmente acredita que o Banco Central existe para proteger o seu poder de compra.
Vamos seguir o avião, que é como se segue o dinheiro quando ele voa. A Boeing não é uma empresa qualquer. É uma extensão semioficial do Pentágono, beneficiária crônica de contratos militares, resgatada discretamente em 2020 com bilhões do contribuinte americano disfarçados de auxílio pandêmico, sustentada por um regulador, a FAA, que historicamente terceirizou a própria fiscalização para a empresa fiscalizada, com os resultados que todo mundo sabe e que custaram trezentas e quarenta e seis vidas nos dois 737 MAX. Esse conglomerado, que falharia em qualquer mercado minimamente livre, vira agora moeda de troca diplomática. O Estado salva a empresa, e a empresa serve de cartão de visita do Estado. Capitalismo de pilha, em que os lucros são privados e o socorro é público.
Do outro lado do balcão, a China não compra avião comercial como dona de casa compra pão. Compra como império compra refém. Cada Boeing que pousa em Xangai é peça em tabuleiro maior, porque envolve transferência de tecnologia, manutenção, treinamento, dependência de peças, contratos de décadas. Pequim sabe que comprar Boeing significa amarrar Washington a um interesse muito concreto, com lobby muito barulhento, com empregos em estados eleitoralmente sensíveis. Trezentos mil empregos diretos e indiretos pesam mais que qualquer relatório de direitos humanos sobre os uigures. A premissa é simples e a conclusão inescapável. Se o lobby da Boeing quer vender, o discurso oficial sobre Taiwan amolece. Se a Boeing precisa de mercado, o relatório sobre Hong Kong some da pauta. As coisas são o que são.
Notem a coreografia perfeita. O presidente viaja, sorri, faz comunicado conjunto, e o anúncio sai logo em seguida, embrulhado em papel celofane diplomático para parecer iniciativa privada espontânea. Mas a empresa privada de verdade, aquela que arrisca o próprio capital, não precisa de chefe de Estado para fechar venda. A Apple não exige presidente para vender iPhone. A Toyota não pede comitiva. A Boeing, sim. Porque a Boeing já não é empresa no sentido honesto da palavra, é apêndice. E todo apêndice depende do corpo. O corpo, no caso, é a máquina estatal americana, financiada por quem trabalha de segunda a sexta e nunca pisou em Pequim, nunca jantou com diplomata, nunca recebeu um centavo desse arranjo. Esse cidadão paga a conta de duas formas: pelo imposto que sustenta a Boeing nos bastidores e pelo aviltamento da moeda que financia a festa.
Os entusiastas da geopolítica vão chamar isso de vitória, de pragmatismo, de realismo. Chamarão de qualquer coisa, menos pelo nome certo, que é mercantilismo do século XVII com fuselagem de alumínio. A diferença entre as companhias das Índias e a Boeing contemporânea é apenas estética. Naquela época, a Coroa concedia monopólio em troca de receita e influência. Hoje, o Tesouro concede socorro em troca de docilidade e propaganda. O resultado é idêntico, a captura do poder político pela empresa favorita e a captura da empresa pela burocracia que ela finge regular. O cidadão, esse personagem secundário, observa a peça e aplaude quando o teleprompter manda aplaudir.
No fim, a pergunta volta sempre ao começo. Quem paga e quem recebe. Recebe o acionista da Boeing, recebe o operador político que costurou a viagem, recebe o Partido Comunista Chinês que comprou silêncio embrulhado em contrato. Paga o trabalhador americano que vê sua moeda derreter, paga o contribuinte que sustentou a empresa em 2020, paga o passageiro que voa em aeronave certificada por um regulador capturado, paga o dissidente chinês cujo nome não será mencionado em coletiva conjunta porque o lobby da fuselagem fala mais alto. Duzentos aviões decolam e, junto com eles, decola a ilusão de que existe livre comércio entre dois Leviatãs cordialmente sentados à mesma mesa.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.