Está marcado. De 13 a 15 de maio, o ocupante temporário da Casa Branca desembarca em Pequim para ser recebido pelo ocupante vitalício do Palácio do Povo. A coreografia foi ensaiada em outubro, em solo coreano, quando os dois combinaram a continuação do baile. Chamam isso de diplomacia. O nome correto é outro: é a reunião de condomínio dos cartéis territoriais mais poderosos do planeta, decidindo, sem consulta a ninguém, o preço da soja, o destino das tarifas, o futuro dos chips e, de quebra, quantos zeros a moeda de cada súdito vai perder no próximo trimestre.
Repare na encenação, porque ela é tudo. Tapete vermelho, hino, banquete, comunicado conjunto cheio de substantivos vagos como cooperação, estabilidade, multipolaridade. Palavras que servem a mesma função das procissões barrocas em séculos passados: anestesiar o povo, fazer brilhar o cetro, lembrar quem manda. A diferença é que o súdito medieval pelo menos via o seu rei. O contribuinte americano e o trabalhador chinês, esses, financiam a passagem, o jato, a comitiva, o serviço secreto, os palácios de recepção, e nem chegam a saber o que ficou acertado por baixo da mesa. Pagam adiantado, em imposto, em inflação, em tarifa repassada no supermercado, e recebem em troca um pronunciamento televisivo onde dois senhores sorridentes garantem que tudo está sob controle.
Quem paga, então, e quem recebe? Pagam os fazendeiros do meio oeste que viram o mercado chinês fechar e abrir conforme o humor presidencial. Pagam os operários de Cantão que produzem pelo salário que o regime determina. Pagam os poupadores dos dois lados, que assistem aos seus bancos centrais imprimirem moeda para custear o teatro geopolítico. Recebem, do lado de cá, os grandes contratantes do Pentágono, as gigantes de tecnologia que negociam exceção à exceção, os fundos amigos que sabem com semanas de antecedência qual setor vai ser blindado e qual vai ser sacrificado. Recebem, do lado de lá, as estatais e os príncipes do Partido, que transformam cada acordo bilateral em monopólio doméstico. O encontro de cúpula é, no fundo, uma operação de insider trading com cobertura jornalística.
O silogismo é insultuoso de tão simples. Toda política externa é financiada por tributo compulsório. Todo tributo compulsório é confisco patrimonial dos que produzem. Logo, toda cúpula presidencial é um confisco que se anuncia em comunicado oficial, embalado em bandeira e servido com champanhe. E ainda esperam aplausos. A imprensa, devidamente domesticada nos dois hemisférios, vai gastar páginas debatendo o aperto de mão, a duração do olhar, a inclinação da cabeça, como se fossem augúrios romanos lendo entranhas de galinha. Não leem nada. Maquiam o saque.
Há uma ilusão recorrente que merece ser desfeita: a de que o homem forte do outro lado é o inimigo, e o nosso é o defensor. Os dois jogam o mesmo jogo, com regras parecidas, contra adversários comuns, que somos nós. Quando um sobe tarifa, o outro retalia, e o cidadão paga duas vezes. Quando um imprime moeda, o outro imprime na sequência, e o poupador é depenado em estéreo. Quando um declara prioridade estratégica, o outro decreta segurança nacional, e a propriedade privada vira nota de rodapé. A rivalidade pública dos dois é o álibi perfeito para a cumplicidade privada de ambos. Brigam no palco, dividem a bilheteria nos bastidores.
Por isso, quando virem as imagens de Pequim entre 13 e 15 de maio, não procurem a notícia no aperto de mão. Procurem nas pautas que sumiram da imprensa naqueles dias, nas ações que dispararam sem motivo aparente, nos decretos publicados em diário oficial enquanto todos olhavam o tapete vermelho. Procurem, sobretudo, no próximo boleto, no próximo posto de gasolina, no próximo extrato bancário. Ali está o recibo do banquete. Quem pagou foi você. Quem recebeu, jantou com talher de prata e câmera ligada.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.