A cena beira o surrealismo de circo itinerante. Em plena capital chinesa, canteiros de obras inteiros estão sendo engolidos por cúpulas infláveis pressurizadas, espécie de preservativos arquitetônicos que prometem isolar a poeira, o barulho e a feiura do entulho da rotina dos moradores. A imprensa oficial e seus papagaios ocidentais aplaudem como se a humanidade tivesse acabado de inventar a roda. O que se vê, na verdade, é um governo que não consegue mais disfarçar o custo social do seu modelo de crescimento permanente e resolveu, literalmente, embalar o problema em plástico transparente.
Convém perguntar o óbvio, aquela pergunta que nenhum repórter encantado com a novidade fez: quem paga essa bolha? A resposta sai automática da boca de qualquer chinês que ainda tenha coragem de murmurar, o pagador é sempre o mesmo, o contribuinte cativo, o morador que já engolia poeira e agora engole também o custo do balão que finge tirar a poeira. O dinheiro sai do bolso de quem não pode dizer não, vai parar na conta das construtoras estatais, dos fabricantes credenciados das tais cápsulas e, claro, da camada de burocratas que despacha as licenças por baixo do pano. A obra é coletiva no preço e privada no lucro, fórmula tão antiga quanto as pirâmides, com a diferença de que o faraó, ao menos, não fingia que a pedra flutuava sozinha.
Há nesse episódio uma lição de lógica que escapa aos encantados de plantão. Se a obra precisa ser embrulhada para não ferir os vizinhos, é porque a obra fere os vizinhos. Se fere os vizinhos, alguém deveria respondê los, indenizá los, negociar com eles. O que o regime faz, em vez disso, é instalar uma cortina insuflável e decretar, por ato administrativo, que o dano deixou de existir porque ninguém o enxerga. É a velha arte de confundir a aparência com a substância, truque que só funciona enquanto os súditos aceitarem o espetáculo. As coisas, contudo, continuam sendo o que são, e não o que o cartaz na entrada da bolha promete.
Repare na elegância do golpe propagandístico. Vende se a cápsula como inovação ambiental, salto tecnológico, gesto de respeito ao cidadão. Tradução honesta: o planejamento central produziu canteiros tão agressivos, tão ruidosos, tão poluentes, que se tornou politicamente custoso deixá los à vista. Em vez de revisar a escala faraônica das obras, em vez de devolver ao proprietário vizinho o direito de processar quem invade o seu sossego, o partido prefere gastar uma fortuna em tecnologia para esconder o próprio fracasso estético e sanitário. É como pintar a parede mofada em vez de trocar o cano furado, com o agravante de que a tinta, aqui, custa milhões e vem acompanhada de aplausos internacionais.
Os entusiastas dirão que o modelo é exportável, que o Ocidente deveria copiar, que o futuro está nas cidades envelopadas. Sempre que todo mundo concorda com algo assim, em uníssono, vale acender o sinal amarelo, porque o consenso fabricado costuma ser o disfarce mais eficaz da mentira. A bolha de Pequim não resolve nada do que importa, ela apenas transfere o problema do plano visual para a planilha orçamentária, do nariz do morador para o bolso do mesmo morador, com a vantagem retórica de transformar custo em virtude. Mágica não é, é contabilidade criativa com cobertura de polietileno.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta sobre obras patrocinadas pelo Estado, aqui, ali ou no quintal do dragão. Quem paga, paga em silêncio. Quem recebe, recebe com sorriso de cerimônia oficial. E o restante de nós, plateia involuntária, é convidado a admirar a bolha como se fosse milagre, quando é apenas mais um capítulo do velho enredo em que o poder se esconde da própria sombra e cobra ingresso para o show.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.