O governo chinês decidiu que funcionários públicos responsáveis por decisões de investimento estatal carregarão essa responsabilidade até o túmulo. Literalmente. Não importa se o sujeito se aposentou, mudou de cargo, fugiu para uma província remota ou se converteu ao budismo contemplativo: a mão do Partido Comunista o alcançará. A notícia é vendida como avanço na governança, como medida anticorrupção, como prova de que o regime leva a sério o dinheiro público. Eu leio de outro modo. Eu leio como a maior confissão involuntária já feita por um Estado sobre a natureza do gasto público.
Pensem comigo. Se você gasta o seu dinheiro, em algo para você, busca o melhor pelo menor preço. Se você gasta o seu dinheiro em algo para outra pessoa, ainda controla o custo, mas relaxa na qualidade. Se você gasta o dinheiro de outra pessoa em algo para você, capricha na qualidade, mas não liga para o preço. Agora, se você gasta o dinheiro dos outros em algo para outros, não liga para o preço nem para a qualidade. Este último caso tem nome: chama-se investimento público. Essa lógica não é chinesa, não é ocidental, não é ideológica. É humana. É o que acontece sempre que se rompe o vínculo entre quem paga e quem decide. O fato de Pequim precisar instituir uma ameaça vitalícia para que seus burocratas pensem duas vezes antes de torrar bilhões em pontes para lugar nenhum e aeroportos fantasma não é sinal de força institucional. É atestado de falência lógica do modelo.
A China ergueu cidades inteiras onde ninguém mora. Construiu autoestradas que ligam o nada ao lugar nenhum. Inflou o setor imobiliário até que empresas como a Evergrande implodiram com centenas de bilhões em dívidas. Quem aprovou esses investimentos? Funcionários que subiam na hierarquia do Partido exatamente por gastar mais, por entregar PIB no curto prazo, por inflar números que agradavam Pequim. O incentivo estrutural era gastar, não economizar. O burocrata que recusasse um projeto faraônico não ganhava medalha de prudência; ganhava estagnação na carreira. Agora, depois de décadas alimentando esse monstro, o Partido percebe que a conta chegou e resolve que a solução é punir o funcionário. Percebam a beleza do raciocínio: o sistema cria o incentivo perverso, o funcionário responde ao incentivo, e quando o resultado é desastroso, pune-se o funcionário. O sistema, esse, permanece intocado.
É como se um cassino obrigasse os crupiês a cobrir do próprio bolso as perdas da casa, sem jamais questionar se o negócio do cassino faz sentido. A responsabilidade vitalícia não ataca a causa, ataca o sintoma. A causa é simples e desconfortável: nenhum comitê de burocratas, por mais ameaçado que esteja, consegue alocar capital com a eficiência de milhões de indivíduos gastando o próprio dinheiro em função das próprias necessidades. Isso não é teoria, é observação empírica repetida em cada século, em cada civilização, em cada regime que tentou centralizar decisões econômicas. O Egito dos faraós construía pirâmides enquanto camponeses passavam fome. Roma financiava circos enquanto as estradas apodreciam. A URSS fabricava tanques enquanto faltava pão. A China constrói metrópoles vazias enquanto a classe média afunda em dívida. O padrão é sempre o mesmo: quem decide não paga, quem paga não decide.
E aqui mora a ironia mais deliciosa. Se a medida funcionar, se de fato o medo da punição perpétua fizer os burocratas chineses pensarem dez vezes antes de aprovar um investimento, o resultado será a paralisia. Nenhum funcionário racional aprovará coisa alguma. O risco pessoal de aprovar será sempre maior que o risco pessoal de engavetar. Pequim terá trocado a gastança desenfreada pela inércia absoluta, dois sintomas diferentes da mesma doença: a impossibilidade de um planejador central substituir o cálculo econômico descentralizado de uma sociedade livre. O problema do investimento público não se resolve com mais controle sobre o investidor público. Resolve-se com menos investimento público. Mas isso, claro, nenhum governo do planeta vai admitir, porque significaria admitir que o rei está nu, que o imperador não tem roupa, que a majestade do Estado é um sujeito gordo e ridículo fingindo que sabe o que faz com o dinheiro que tomou de você.
Quem paga? O contribuinte chinês, como sempre. Quem recebe? O aparato estatal, que agora se apresenta como guardião da responsabilidade fiscal depois de décadas sendo o maior irresponsável fiscal do planeta. A raposa anuncia que vai vigiar o galinheiro, e os jornais noticiam como se fosse progresso.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.